sexta-feira, 19 de junho de 2015

Redução da maioridade penal vai legitimar genocídio da juventude negra

Do site nacional do PSTU.


Medida pode ser votado em plenário no próximo dia 30

Comemoração da aprovação da redução da maioridade em comissão
Ag Brasil
No início da noite dessa quarta, 17, sob forte proteção policial, a comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou o projeto de redução da maioridade penal no Brasil. Tendo à frente a chamada bancada da bala e evangélica, assim como o reacionário presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o projeto está pronto para ser votado no plenário da Câmara, o que deve ocorrer no próximo dia 30.
É inegável que a proposta de redução da maioridade penal dos atuais 18 para 16 anos encontra amplo respaldo na população. Sobretudo entre os mais pobres. E é também fato que essa discussão se dá num contexto de extrema violência urbana que atinge, principalmente, os mais pobres. Mas será que essa é a solução para conter a chamada criminalidade? Teria razão os Bolsonaros, Datenas e Malafaias da vida?
Para lançar luz nesse debate o Ipea (Instituto de Pesquisas Econômica Aplicadas) divulgou o estudo "O Adolescente em Conflito com a Lei e o Debate sobre a Redução da Maioridade Penal" dos pesquisadores Enid Rocha Andrade Silva e Raissa Menezes de Oliveira. Nesse estudo, tomando como base a situação dos jovens de 12 a 17 anos com informações da PNAD (Pesquisa Nacional de Domicílios) de 2013, chegam à conclusão de que o Estado faz vistas grossas para a juventude brasileira. E não é em relação à impunidade.
A situação dos jovens no Brasil
O país conta com 21 milhões de jovens e adolescentes, 11% do total da população brasileira. A maior parte concentrada na região Sudeste (38,7%) e Nordeste (30,4%). Desses, quase 60% são negros. E qual a situação desses jovens? Pegando os jovens de 15 a 17 anos, mais de 1 milhão não tinham trabalho e não estudavam. Desses, quase 65% eram negros. Desse montante de jovens que não trabalham nem estudam, 83%, a grande maioria, são classificados como extremamente pobres e vivem em famílias com renda per capta que não chega a um salário mínimo.
Já os jovens que trabalham sobrevivem com a precarização e os baixos salários. A esmagadora maioria dos jovens de 15 que trabalha ganha menos de um salário mínimio. Ampliando essa base para os jovens de 15 a 17 anos, mais de metade, 60%, ganha menos que um mínimo.
Se os jovens brasileiros convivem com o desemprego e a precarização, quando o assunto é violência esses números não são melhores. Pegando a PNAD de 2009, vê-se que 1,6% da população já foi vítima de algum tipo de agressão. Entre os adolescentes, essa proporção vai para 1,9%. Desses, 60% são negros. Dos adolescentes agredidos, 2,8% dos brancos foi vítima de um policial ou agente de segurança privado. Já entre os adolescentes negros 4% já apanharam da polícia ou de segurança.
Já os números do Mapa da Violência de 2013 são mais dramáticos. Em 30 anos, as mortes por armas de fogo, por exemplo, cresceram 346%. Mas nos casos dos jovens, esse crescimento foi de 414%. Aqui também a juventude negra aparece mais exposta, com 133% a mais de mortes do que brancos.
Os menores infratores
Se a juventude e, sobretudo, a juventude negra é a maior vítima da violência de uma sociedade que a exclui e a relega ao desemprego e ao subemprego, o que dizer dos chamados menores infratores? Não contribuiriam pra essa violência como tanto parecem fazer crer os conservadores e reacionários de várias colorações? Um dado já bastante divulgado é o da Unicef Brasil que mostra que, dos 21 milhões de adolescentes do Brasil, menos de um por cento (0,013%) cometeu algum crime contra a vida.
Dos adolescentes detidos no Brasil em 2013, quase 40% haviam sido presos por roubo. A segunda causa das "prisões" de adolescentes e jovens no Brasil é tráfico, com 23,5%. Homicídio aparece só em terceiro lugar, com menos de 10% das causas de internação (8,75%). Latrocínio, roubo seguido de morte, responde por apenas 1,95% das detenções. Mas e esses jovens que mataram não se beneficiam de um sistema injusto que, sob o manto da proteção dos jovens e adolescentes, não promove a impunidade? Esse é um dos maiores mitos que cerca o tema.
Segundo o estudo citado pelo relatório do Ipea, comparando o sistema socioeducacional para jovens e o penal para os adultos, é mais fácil um jovem ou adolescente cumprir uma pena de três anos em regime fechado que um criminoso adulto. Pra um adulto ficar três anos na cadeia ele precisa ser condenado a, pelo menos, 18 anos de prisão, caso bem raro.
Temos então o seguinte quadro: enquanto jovens são vítimas preferenciais da violência, respondem à extrema minoria dos crimes praticados. Desses crimes, uma minoria ainda mais ínfima é formado por homicídios. E, uma vez detidos, ficam mais tempo presos que os adultos. E a maioria, 60% são negros. 
A quem serve a redução da maioridade?
Os dados levantados pelo Ipea e demais pesquisas comprovam que a causa da violência não vem de uma suposta impunidade a menores infratores. Revelam que, ao contrário, os jovens, e principalmente os jovens negros e pobres, são vítimas dessa violência. Por que então essa histeria em torno do tema? Por que os políticos se mobilizam para aprovar a redução da maioridade e comemoram pateticamente cada vitória conquistada no Congresso?
Ao contrário do que se pode pensar, essa medida não vai só não reduzir a violência, como ajudar a legitimar ainda mais o genocídio da juventude negra e pobre.  Encontra apoio popular porque é uma resposta aparentemente fácil a um problema concreto. Mas quando os deputados aprovam isso, não estão pensando em playboys que atropelam ciclistas pobres e fogem, nem em seus próprios filhos ou familiares. Há uma imagem bem definida em suas cabeças: e essa imagem é de um adolescente negro na favela ou na periferia. É contra eles que apontam suas armas.
O governo Dilma, por sua vez, ao mesmo tempo em que diz ser contra a redução da maioridade, costura um acordo via ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, com o PSDB. Esse acordo amplia o tempo de internação dos atuais 3 para até 10 anos. Ou seja, é uma variante do projeto da bancada da bala e vai no mesmo sentido de criminalizar a juventude.
Verdadeira impunidade
Enquanto isso, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) citado na Operação Lava Jato e respondendo a crimes que preencheriam metros de ficha corrida, continua impune. Renan Calheiros (PDMB-AL), outro notável corrupto, continua impune e, eventualmente, até ocupando a cadeira de presidente, já que é o chefe do Senado e substitui Dilma quando esta e o vice estão fora. Enquanto isso, todos os corruptos do Congresso Nacional estão impunes, gozando de todos os privilégios possíveis e tramando um shopping para atendê-los que vai custar R$ 1 bilhão.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

“A dívida pública é um megaesquema de corrupção institucionalizado”


Em entrevista a CartaCapital, Maria Lucia Fattorelli, que auditou a dívida pública do Equador e foi convidada pelo Syriza para analisar a dívida grega, aponta que o sistema atual provoca desvio de recursos públicos para o mercado financeiro.
Foto de Images of Money/flickr
Dois meses antes de o governo de Dilma Rousseff anunciar oficialmente o corte de 70 mil milhões de reais do Orçamento por conta do ajuste fiscal, uma brasileira foi convidada pelo Syriza, partido grego de esquerda que venceu as últimas eleições, para compor o Comité pela Auditoria da Dívida Grega com outros 30 especialistas internacionais. A brasileira em questão é Maria Lucia Fattorelli, auditora aposentada da Receita Federal e fundadora do movimento “Auditoria Cidadã da Dívida” no Brasil. Mas o que o ajuste tem a ver com a recuperação da economia na Grécia? Tudo, diz Fattorelli. “A dívida pública é a espinha dorsal”.
Enquanto o Brasil caminha em direção à austeridade, a estudiosa participa da comissão que vai investigar os acordos, esquemas e fraudes na dívida pública que levaram a Grécia, segundo o Syriza, à crise económica e social. “Existe um ‘sistema da dívida’. É a utilização desse instrumento [dívida pública] como veículo para desviar recursos públicos em direção ao sistema financeiro”, complementa Fattorelli.
Esta não é a primeira vez que a auditora é acionada para esse tipo de missão. Em 2007, Fattorelli foi convidada pelo presidente do Equador, Rafael Correa, para ajudar na identificação e comprovação de diversas ilegalidades na dívida do país. O trabalho reduziu em 70% o stock da dívida pública equatoriana.
Em entrevista a CartaCapital, diretamente da Grécia, Fattorelli falou sobre como o “esquema”, controlado por bancos e grandes empresas, também se repete no pagamento dos juros da dívida brasileira, atualmente em 334.600 milhões de reais, e provoca a necessidade do tal ajuste.
Maria Lucia Fattorelli já auditou a dívida pública do Equador e agora faz o mesmo pela Grécia
Leia a entrevista:
CartaCapital: O que é a dívida pública?
Maria Lucia Fattorelli: A dívida pública, de forma técnica, como aprendemos nos livros de Economia, é uma forma de complementar o financiamento do Estado. Em princípio, não há nada errado no facto de um país, de um estado ou de um município se endividar, porque o que está acima de tudo é o atendimento do interesse público. Se o Estado não arrecada o suficiente, em princípio, ele poderia se endividar para o ingresso de recursos para financiar todo o conjunto de obrigações que o Estado tem. Teoricamente, a dívida é isso. É para complementar os recursos necessários para o Estado cumprir com as suas obrigações. Isso em principio.
CC: E onde começa o problema?
MLF: O problema começa quando nós começamos a auditar a dívida e não encontramos contrapartida real. Que dívida é essa que não pára de crescer e que leva quase metade do Orçamento? Qual é a contrapartida dessa dívida? Onde é aplicado esse dinheiro? E esse é o problema. Depois de várias investigações, no Brasil, tanto em âmbito federal, como estadual e municipal, em vários países latino-americanos e agora em países europeus, nós determinamos que existe um sistema da dívida. O que é isso? É a utilização desse instrumento, que deveria ser para complementar os recursos em benefício de todos, como o veículo para desviar recursos públicos em direção ao sistema financeiro. Esse é o esquema que identificamos onde quer que a gente investigue.
CC: E quem, normalmente, são os beneficiados por esse esquema? Em 2014, por exemplo, os juros da dívida subiram de 251.100 milhões de reais para 334.600 milhões de reais no Brasil. Para onde está indo esse dinheiro de facto?
O Tesouro Nacional lança os títulos da dívida pública e o Banco Central vende. Ele anuncia um leilão e só podem participar desse leilão 12 instituições credenciadas. São os chamados dealers. São os maiores bancos do mundo. De seis em seis meses, às vezes, essa lista muda. Mas sempre os maiores estão lá: Citibank, Itaú, HSBC... eles são os credores porque não tem nenhuma aplicação do mundo que pague mais do que os títulos da dívida brasileira
MLF: Nós sabemos quem compra esses títulos da dívida porque essa compra direta é feita por meio dos leilões. O processo é o seguinte: o Tesouro Nacional lança os títulos da dívida pública e o Banco Central vende. Como o Banco Central vende? Ele anuncia um leilão e só podem participar desse leilão 12 instituições credenciadas. São os chamados dealers. A lista dos dealers nós temos. São os maiores bancos do mundo. De seis em seis meses, às vezes, essa lista muda. Mas sempre os maiores estão lá: Citibank, Itaú, HSBC... é por isso que a gente fala que, hoje em dia, falar em dívida externa e interna não faz nem mais sentido. Os bancos estrangeiros estão aí comprando diretamente da boca do caixa. Nós sabemos quem compra e, muito provavelmente, eles são os credores porque não tem nenhuma aplicação do mundo que pague mais do que os títulos da dívida brasileira. É a aplicação mais rentável do mundo. E só eles compram diretamente. Então, muito provavelmente, eles são os credores.
CC: Por quê provavelmente?
MLF: Por que nem mesmo na CPI da Dívida Pública, entre 2009 e 2010, e olha que a CPI tem poder de intimação judicial, o Banco Central informou quem são os detentores da dívida brasileira. Eles chegaram a responder que não sabiam porque esses títulos são vendidos nos leilões. O que a gente sabe que é mentira. Porque, se eles não sabem quem são os detentores dos títulos, para quem eles estão pagando os juros? Claro que eles sabem. Se você tem uma dívida e não sabe quem é o credor, para quem você vai pagar? Em outro momento chegaram a falar que essa informação era sigilosa. Seria uma questão de sigilo bancário. O que é uma mentira também. A dívida é pública, a sociedade é que está pagando. O salário do servidor público não está na internet? Por que os detentores da dívida não estão? Nós temos que criar uma campanha nacional para saber quem é que está levando vantagem em cima do Brasil e provocando tudo isso.
CC: Qual é a relação entre os juros da dívida pública e o ajuste fiscal, em curso hoje no Brasil?
MLF: Todo mundo fala no corte, no ajuste, na austeridade e tal. Desde o Plano Real, o Brasil produz superavit primário todo ano. Tem ano que produz mais alto, tem ano que produz mais baixo. Mas todo ano tem superavit primário. O que quer dizer isso, superavit primário? Que os gastos primários estão abaixo das receitas primárias. Gasto primários são todos os gastos, com exceção da dívida. É o que o Brasil gasta: saúde, educação... exceto juros. Tudo isso são gastos primários. Se você olhar a receita, o que alimenta o orçamento? Basicamente a receita de tributos. Então superavit primário significa que o que nós estamos arrecadando com tributos está acima do que estamos gastando, então está sobrando uma parte.
CC: E esse dinheiro que sobra é para pagar os juros dívida pública?
MLF: Isso, e essa parte do superavit paga uma pequena parte dos juros porque, no Brasil, nós estamos emitindo nova dívida para pagar grande parte dos juros. Isso é escândalo, é inconstitucional. Nossa Constituição proíbe o que se chama de anatocismo. Quando você contrata dívida para pagar juros, o que você está fazendo? Você está transformando juros em uma nova divida sobre a qual vai incidir juros. É o tal de juros sobre juros. Isso cria uma bola de neve que gera uma despesa em uma escala exponencial, sem contrapartida, e o Estado não pode fazer isso. Quando nós investigamos qual é a contrapartida da dívida interna, percebemos que é uma dívida de juros sobre juros. A divida brasileira assumiu um ciclo automático. Ela tem vida própria e se retroalimenta. Quando isso acontece, aquele juros vai virar capital. E, sobre aquele capital, vai incidir novos juros. E os juros seguintes, de novo vão ser transformados em capital. É, por isso, que quando você olha a curva da dívida pública, a reta resultante é exponencial. Está crescendo e está quase na vertical. O problema é que vai explodir a qualquer momento.
CC: Explodir por quê?
A estratégia do sistema da dívida é a seguinte: você cria uma dívida e essa dívida torna o pais submisso. O país vai entregar património atrás de património. Assim nós já perdemos as telefónicas, as empresas de energia elétrica, as hidroelétricas, as siderúrgicas. Tudo isso passou para propriedade desse grande poder económico mundial
MLF: Por que o mercado – quando eu falo em mercado, estou me referindo aos dealers – está aceitando novos títulos da dívida como pagamento em vez de receber dinheiro moeda? Eles não querem receber dinheiro moeda, eles querem novos títulos, por dois motivos. Por um lado, o mercado sabe que os juros vão virar novo título e ele vai ter um volume cada vez maior de dívidas para receber. Segundo: dívida elevada tem justificado um continuo processo de privatização. Como tem sido esse processo? Entrega de património cada vez mais estratégico, cada vez mais lucrativo. Nós vimos há pouco tempo a privatização de aeroportos. Não é pouca coisa os aeroportos de Brasília, de São Paulo e do Rio de Janeiro estarem em mãos privadas. O que no fundo esse poder económico mundial deseja é património e controle. A estratégia do sistema da dívida é a seguinte: você cria uma dívida e essa dívida torna o pais submisso. O país vai entregar património atrás de património. Assim nós já perdemos as telefónicas, as empresas de energia elétrica, as hidroelétricas, as siderúrgicas. Tudo isso passou para propriedade desse grande poder económico mundial. E como é que eles [dealers] conseguem esse poder todo? Aí entra o financiamento privado de campanha. É só você entrar no site do TSE [Tribunal Superior Eleitoral] e dar uma olhada em quem financiou a campanha desses caras. Ou foi grande empresa ou foi banco. O nosso ataque em relação à dívida é porque a dívida é o ponto central, é a espinha dorsal do esquema.
CC: Como funcionaria a auditoria da dívida na prática? Como diferenciar o que é dívida legítima e o que não é?
MLF: A auditoria é para identificar o esquema de geração de dívida sem contrapartida. Por exemplo, só deveria ser paga aquela dívida que preenche o requisito da definição de dívida. O que é uma dívida? Se eu disser para você: ‘Me paga os 100 reais que você me deve’. Você vai falar: “Que dia você me entregou esses 100 reais?’ Só existe dívida se há uma entrega. Aconteceu isso aqui na Grécia. Mecanismos financeiros, coisas que não tinham nada a ver com dívida, tudo foi empurrado para as estatísticas da dívida. Tudo quanto é derivativo, tudo quanto é garantia do Estado, os tais CDS [Credit Default Swap - espécie de seguro contra calotes], essa parafernália toda desse mundo capitalista 'financeirizado'. Tudo isso, de uma hora para outra, pode virar dívida pública. O que é a auditoria? É desmascarar o esquema. É mostrar o que realmente é dívida e o que é essa farra do mercado financeiro, utilizando um instrumento de endividamento público para desviar recursos e submeter o País ao poder financeiro, impedindo o desenvolvimento socioeconómico equilibrado. Junto com esses bancos estão as grandes corporações e eles não têm escrúpulos. Nós temos que dar um basta nessa situação. E esse basta virá da cidadania. Esse basta não virá da classe política porque eles são financiados por esse setor. Da elite, muito menos porque eles estão usufruindo desse mecanismo. A solução só virá a partir de uma consciência generalizada da sociedade, da maioria. É a maioria, os 99%, que está pagando essa conta. O Armínio Fraga [ex-presidente do Banco Central] disse isso em depoimento na CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] da Dívida, em 2009, quando perguntado sobre a influência das decisões do Banco Central na vida do povo. Ele respondeu: “Olha, o Brasil foi desenhado para isso”.
CC: Quanto aproximadamente da dívida pública está na mão dos bancos e de grandes empresas? O Tesouro Direto, que todos os brasileiros podem ter acesso, corresponde a que parcela do montante?
MLF: Essa história do Tesouro Direto é para criar a impressão que a dívida pública é um negócio correto, que qualquer um pode entrar lá e comprar. E, realmente, se eu ou você comprarmos é uma parte legítima. Agora, se a gente entrar lá e comprar, não é direto. É só para criar essa ilusão. Tenta entrar lá para comprar um título que seja. Você vai chegar numa tela em que vai ter que escolher uma instituição financeira. E essa instituição financeira vai te cobrar uma comissão que não é barata. Ela não vai te pagar os juros todos do título, ela vai ficar com um pedaço. O banco, o dealer, que compra o título da dívida é quem estabelece os juros. Ele estabelece os juros que ele quer porque o governo lança o título e faz uma proposta de juros. Se, na hora do leilão, o dealer não está contente com aquele patamar de juros, ele não compra. Ele só compra quando os juros chegam no patamar que ele quer. Invariavelmente, os títulos vêm sendo vendidos muito acima da Selic [taxa básica de juros]. Em 2012, quando a Selic deu uma abaixada e chegou a 7,25%, nós estávamos acompanhando e os títulos estavam sendo vendidos a mais de 10% de juros. E eles sempre compram com deságio. Se o título vale 1000 reais, ele compra por 960 reais ou 970 reais, depende da pressão que ele quer impor no governo aquele dia. Olha a diferença. Se você compra no Tesouro Direto, você não vai ter desconto. Pelo contrário, você vai ter que pagar uma comissão. E você também não vai mandar nos juros. É uma operação totalmente distinta da operação direta de verdade que acontece lá no leilão.
CC: Por que é tão difícil colocar a auditoria em prática? Como o mercado financeiro costuma reagir a uma auditoria?
Nós estamos diante de um monstro mundial que controla o poder financeiro e o poder político com esquemas fraudulentos. É muito grave isso. Eu diria que é um megaesquema de corrupção institucionalizado
MLF: O mercado late muito, mas na hora ele é covarde. Lá no Equador, quando estávamos na reta final e vários relatórios preliminares já tinham sido divulgados, eles sabiam que tínhamos descoberto o mecanismo de geração de dívida, várias fraudes. Eles fizeram uma proposta para o governo de renegociação. Só que o Rafael Correa [atual presidente do Equador] não queria negociar. Ele queria recomprar e botar um ponto final. Porque quando você negocia, você dá uma vida nova para a dívida. Você dá uma repaginada na dívida. Ele não queria isso. Ele queria que o governo dele fosse um governo que marcasse a história do Equador. Ele sabia que, se aceitasse, ficaria subjugado à dívida. Ele foi até ao fim, fez uma proposta e o que os bancos fizeram? 95% dos detentores dos títulos entregaram. Aceitaram a oferta de recompra de no máximo 30% e o Equador eliminou 70% da sua dívida externa em títulos. No Brasil, durante os dez meses da CPI da Dívida, a Selic não subiu. Foi incrível esse movimento. Nós estamos diante de um monstro mundial que controla o poder financeiro e o poder político com esquemas fraudulentos. É muito grave isso. Eu diria que é um megaesquema de corrupção institucionalizado.
CC: O mercado financeiro e parte da imprensa costumam classificar a auditoria da dívida de calote. Por que a auditoria da dívida não é calote?
No dia em que a gente conseguir uma compreensão maior do que é uma auditoria da dívida e a fragilidade que lado está do lado de lá, a gente muda o mundo e o curso da história mundial
MLF: A auditoria vai investigar e não tem poder de decisão do que vai ser feito. A auditoria só vai mostrar. No Equador, a auditoria só investigou e mostrou as fraudes, mecanismos que não eram dívidas, renúncias à prescrição de dívidas. O que é isso? É um ato nulo. Dívidas que já estavam prescritas. Uma dívida prescrita é morta. E isso aconteceu no Brasil também na época do Plano Brady, que transformou dívidas vencidas em títulos da dívida externa. Depois, esses títulos da dívida externa foram usados para comprar nossas empresas que foram privatizadas na década de 1990: Vale, Usiminas...tudo comprado com título da dívida em grande parte. Você está vendo como recicla? Aqui, na Grécia, o país está sendo pressionado para pagar uma dívida ilegítima. E qual foi a renegociação feita pelo [Georgios] Papandréu [ex-primeiro-ministro da Grécia]? Ele conseguiu um adiamento em troca de um processo de privatização de 50 mil milhões de euros. Esse é o esquema. Deixar de pagar esse tipo de dívida é calote? A gente mostra, simplesmente, a parte da dívida que não existe, que é nula, que é fraude. No dia em que a gente conseguir uma compreensão maior do que é uma auditoria da dívida e a fragilidade que lado está do lado de lá, a gente muda o mundo e o curso da história mundial.
CC: Em comparação com o ajuste fiscal, que vai cortar 70 mil milhões de reais de gastos, tem alguma estimativa de quanto a auditoria da dívida pública poderia economizar de despesas para o Brasil?
MLF: Essa estimativa é difícil de ser feita antes da auditoria, porém, pelo que já investigámos em termos de origem da dívida brasileira e desse impacto de juros sobre juros, você chega a estimativas assustadoras. Essa questão de juros sobre juros eu abordei no meu último livro. Nos últimos anos, metade do crescimento da divida é nulo. Eu só tive condição de fazer o cálculo de maneira aritmética. Ficou faltando fazer os cálculos de 1995 a 2005 porque o Banco Central não nos deu os dados. E mesmo assim, você chega a 50% de nulidade da dívida, metade dela. Consequentemente para os juros seria o mesmo [montante]. Essa foi a grande jogada do mercado financeiro no Plano Real porque eles conseguiram gerar uma dívida maluca. No início do Plano Real os juros brasileiros chegaram a mais de 40% ao ano. Imagina uma divida com juros de 40% ao ano? Você faz ela crescer quase 50% de um ano para o outro. E temos que considerar que esses juros são mensais. O juro mensal, no mês seguinte, o capital já corrige sobre o capital corrigido no mês anterior. Você inicia um processo exponencial que não tem limite, como aconteceu na explosão da dívida a partir do Plano Real. Quando o Plano Real começou, nossa dívida estava em quase 80 mil milhões de reais. Hoje ela está em mais de três biliões de reais. Mais de 90% da divida é de juros sobre juros.
CC: E isso é algo que seria considerado ilegal na auditoria da dívida pública?
MLF: É mais do que ilegal, é inconstitucional. Nossa Constituição proíbe juros sobre juros para o setor público. Tem uma súmula do Supremo Tribunal Federal, súmula 121, que diz que ainda que tenha se estabelecido em contrato, não pode. É inconstitucional. Tudo isso é porque tem muita gente envolvida, favorecida e mal informada. Esses tabus, essa questão do calote, muita gente fala isso. Eles tentam desqualificar. Falamos em auditoria e eles falam em calote. Mas estou falando em investigar. Se você não tem o que temer, vamos abrir os livros. Vamos mostrar tudo. Se a dívida é tão honrada, vamos olhar a origem dessa dívida, a contrapartida dela.
CC: Ao longo da entrevista, a senhora citou diversos momentos da história recente do Brasil, o que mostra que esse problema vem desde o governo Fernando Henrique Cardoso, e passou pelas gestões Lula e Dilma. Mas como a questão da dívida se agravou nos últimos anos? A dívida externa dos anos 1990 se transformou nessa dívida interna de hoje?
MLF: Houve essa transformação várias vezes na nossa história. Esses movimentos foram feitos de acordo com o interesse do mercado. Tanto de interna para externa, como de externa para interna, de acordo com o valor do dólar. Esses movimentos são feitos pelo Banco Central do Brasil em favor do mercado financeiro, invariavelmente. Quando o dólar está baixo, e seria interessante o Brasil quitar a dívida externa, por precisar de menos reais, se faz o contrário. Ele contrai mais dívida em dólar. Esses movimentos são sempre feitos contra nós e a favor do mercado financeiro.
CC: E o pagamento da dívida externa, em 2005?
MLF: O que a gente critica no governo Lula é que, para pagar a dívida externa em 2005, na época de 15 mil milhões de dólares, ele emitiu reais. Ele emitiu dívida interna em reais. A dívida com o FMI [Fundo Monetário Internacional] era 4% ao ano de juros. A dívida interna que foi emitida na época estava em média 19,13% de juros ao ano. Houve uma troca de uma dívida de 4% ao ano para uma de 19% ao ano. Foi uma operação que provocou danos financeiros ao País. E a nossa dívida externa com o FMI não era uma dívida elevada, correspondia a menos de 2% da dívida total. E por que ele pagou uma dívida externa para o FMI que tinha juros baixos? Porque, no inconsciente coletivo, divida externa é com o FMI. Todo mundo acha que o FMI é o grande credor. Isso, realmente, gerou um ganho político para o Lula e uma tranquilidade para o mercado. Quantos debates a gente chama sobre a dívida e as pessoas falam: “Esse debate já não está resolvido? Já não pagamos a dívida toda?’. Não são poucas as pessoas que falam isso por conta dessa propaganda feita de que o Lula resolveu o problema da dívida. E o mercado ajuda a criar essas coisas. Eu falo o mercado porque, na época, eles também exigiram que a Argentina pagasse ao FMI. E eles também pagaram de forma antecipada. Você vê as coisas aconteceram em vários lugares, de forma simultânea. Tudo bem armado, de fora para dentro, na mesma época.
CC: O que a experiência grega de auditoria da dívida poderia ensinar ao Brasil, na sua opinião?
MLF: São muitas lições. A primeira é a que ponto pode chegar esse plano de austeridade fiscal. Os casos aqui da Grécia são alarmantes. Em termos de desemprego, mais de 100 mil jovens formados deixaram o país nos últimos anos porque não têm emprego. Foram para o Canadá, Alemanha, vários outros países. A queda salarial, em média, é de 50%. E quem está trabalhando está feliz porque normalmente não tem emprego. Jornalista, por exemplo, não tem emprego. Tem até um jornalista que está colaborando com a nossa comissão e disse que só não está passando fome por conta da ajuda da família. A maioria dos empregos foram flexibilizados, as pessoas não têm direitos. Serviços de saúde fechados, escolas fechadas, não tem vacina em posto de saúde. Uma calamidade terrível. Trabalhadores virando mendigos de um dia para o outro. Tem ruas aqui em que todas as lojas estão fechadas. Todos esses pequenos comerciantes ou se tornaram dependentes da família ou foram para a rua ou, pior, se suicidaram. O número de suicídios aqui, reconhecidamente por esse problema económico, passa de 5 mil. Tem vários casos de suicídio em praça pública para denunciar. Nesses dias em que estou aqui, houve uma homenagem em frente ao Parlamento para um homem que se suicidou e deixou uma carta na qual dizia que estava entregando a vida para que esse plano de austeridade fosse denunciado.
Entrevista publicada em Carta Capital

terça-feira, 2 de junho de 2015

PÁTRIA EDUCADORA VERSUS PÁTRIA DOS BANQUEIROS


Escrito por José Menezes Gomes  - Doutor pela USP e pós Doutor pela UFPE 

Logo após a Presidente Dilma lançar o seu lema: Brasil, Pátria Educadora, o governo deu inicio as ações para a aprovação do ajuste fiscal a cargo do Ministro Levy, apoiador do candidato do PSDB, derrotado na última eleição. Este pacote cortou R$ 70 bilhões das despesas sociais, sendo R$ 9,3 bilhões da educação. Apesar do lema criado, que indicaria uma atenção a educação, o que observamos no Orçamento da União de 2015 foi a previsão de gasto com o serviço da dívida pública um valor de R$ 1,3 trilhão. Em 2014 a previsão foi de R$ 1 trilhão ou 12 vezes os gastos com educação. Com isso o governo pretende sinalizar ao mercado ou aos credores da dívida pública (grandes bancos e fundos de pensão) que irá cumprir a meta de superavit primário de 1,1% do PIB.

Este acréscimo de R$ 300 bilhões para este ano representa um valor superior ao gasto de R$ 255 bilhões com pessoal da União para 2015 (aposentados e não aposentados). Em outras palavras, o que foi acrescido com o serviço da divida pública poderia ter garantido a duplicação das despesas com pessoal. Entretanto, o discurso do governo e da mídia burguesa é que o governo está gastando muito com pessoal e que poderia comprometer a solidez das contas públicas. Esta mídia encobre que os cortes ocorrem nas despensas sociais e que sempre são acompanhados pelo aumento dos gastos com o serviço do dívida pública. Ao mesmo tempo, temos a pratica da elevação da taxa de juros como forma de combater a inflação. Cria-se um vínculo falso entre elevar a taxa de juros como forma prioritária de se combater a inflação e de retomada do crescimento econômico.

As ameaças as universidades públicas não se resumem apenas diretamente dos cortes de recursos, mas do conjunto dos ataques aos direitos dos trabalhadores, em curso. Nesta direção, temos: a) privatização da parte principal da previdência dos servidores e a criação do FUNPRESP, b) privatização dos Hospitais Universitários e a criação da EBSERH, c) a proposta da CAPES da contratação de professores sem ser pelo Regime Jurídico Único - RJU, d) a ampliação da contratação de trabalhadores terceirizados em substituição aos Técnicos administrativos efetivos. Além disse, o temos a desconstrução da carreira docente em curso mediante o acordo assinado pelo PROIFES nos últimos três anos. Todas estas ações se juntam na iniciativa do STF de reconhecer a terceirização nas áreas fins do serviço público, o que pode ameaçar todas as carreiras do serviço seja federal, estadual ou municipal. Considerando que em quatro anos metade dos professores da Universidades federais terão direito a se aposentar e se não for assegurando a abertura de concurso para preenchimento destas vagas pelo RJU, poderíamos ter no curto prazo metade do corpo docente sem ser servidor público, acentuando ainda a precarização do trabalho docente.

A expansão das IFES se deu via REUNI, enquanto parte dos recursos públicos foi destinada a financiar a Educação privada via FIES e PROUNI. Esta expansão sem o devido financiamento e planejamento foi acompanhada pelos ataques ao núcleo do conceito de universidade baseada no tripe Ensino, Pesquisa e Extensão, de forma implacável. Cada peça montada na nova concepção de Universidade e de carreira docente faz retomar os princípios fundamentais da Reforma do Estado proposta por Bresser Pereira, ex- ministro de FHC. No momento atual temos um aprofundamento dos cortes enquanto se avança o conjunto da Reforma Universitária, que na Europa já se mostrou devastadora para aquelas universidades e das respectivas carreiras docentes, há mais de duas décadas, em nome da austeridade fiscal.

A ameaça que a universidades universidades públicas sofre resulta, principalmente, do aprofundamento dos ataques feitos à classe trabalhadora, desde o inicio do neoliberalismo na década de 1990, que começou pelo ataque aos trabalhadores do setor privado e que agora se generaliza pelo setor público. A diferença é que estes ataques começaram no brasil por governo explicitamente neoliberal e que agora se aprofundam por governos que se constituíram num suposto combate ao neoliberalismo, mas que uma vez no governo aprofundaram estas políticas fazendo-as ainda mais letais devido a cooptação de parte do movimento social.

Os bancos, que já tiveram lucros exorbitantes em 2014, certamente terão lucros ainda maiores em 20151, tendo vista a política de ajuste fiscal com cortes nas despesas sociais e aumento nas despesas com o serviço da dívida. Somente o banco Itaú teve lucro de 29% em 2014. Isto tudo ocorre quando a retração da economia já levou a PIB próximo de zero em 2014 e com grande possibilidade de PIB negativo para 2015. Em outras palavras, a política de ajuste fiscal somado a elevação dos juros, acabam mesmo é elevando ainda mais a dívida pública que em seguida leva a novos cortes das despesas sociais e mais ataques aos servidores e serviços públicos. Está é a politica da pátria dos banqueiros, já que estes são os responsáveis de pela compra de 55% dos títulos públicos.

O momento atual exige um fortalecimento da greve nas Universidades federais com os três segmentos (alunos, técnicos e professores) e da defesa dos serviços públicos e da luta pela auditoria da dívida como prevê o artigo 26 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988. É bom recordar que na auditoria da dívida realizada no Equador foi constatado que 70% daquela dívida era ilegal. Sendo assim, temos uma dívida pública que cada vez compromete parte crescente do orçamento que pode ser em grande parte ilegal, como constatado no Equador.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Juiz da Ficha Limpa detona reforma de Cunha

Do Jornal congressoemfoco.

“Ninguém havia ousado propor algo tão nocivo para a democracia brasileira”, diz Márlon Reis. Para ele, reforma política defendida pelo presidente da Câmara é a maior ameaça ao país desde a ditadura e retrocede à República Velha

Divulgação
"Argumento a favor do 'distritão' é infantil e simplório", afirma Márlon Reis
Idealizador da Lei da Ficha Limpa e coordenador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), o juiz Márlon Reis vê a proposta de reforma política defendida pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), como a maior ameaça à democracia do país desde o fim da ditadura militar. “Ela promove uma oligarquização sem precedentes na política”, avalia. “Ninguém havia ousado propor algo tão nocivo para a democracia brasileira”, acrescenta.
Para Márlon, a substituição do sistema proporcional pelo majoritário na eleição de deputados e vereadores, o chamado “distritão”, e a inclusão no texto constitucional das doações eleitorais por empresas vão privilegiar apenas as oligarquias, os “poderosos locais”.
“Elege quem tem mais poder e ficarão de fora todas as minorias. Não há possibilidade de representação de grupos de minorias. Só os poderosos locais são eleitos”, critica. “É um retrocesso à República Velha”, emenda. Esses pontos foram incluídos no relatório do novo relator da reforma política, Rodrigo Maia (DEM-RJ), designado para a função após a destituição de Marcelo Castro (PMDB-PI), que relatou a proposta na comissão especial.
Desde 2013, o MCCE tem liderado ao lado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) um projeto de reforma política que foi ignorado pelo Congresso. A proposta foi articulada por meio de uma coalizão pró-reforma política que juntou outras entidades, como a CNBB, a Central Única dos Trabalhadores e a União Nacional dos Estudantes (UNE). Pelo modelo proposto, a reforma política incluiria a proibição do financiamento por empresa, a criminalização do caixa dois e o fim da reeleição, além de votação em dois turnos para a eleição de deputados.
Confira a entrevista que Márlon Reis concedeu ao Congresso em Foco.
Congresso em Foco – A reforma política, do jeito que o presidente da Câmara defende e tem articulado para que seja aprovada, é boa ou ruim para o país?Márlon Reis – Ela é uma medida totalmente antidemocrática. É a maior ameaça à democracia brasileira desde o final da ditadura militar. Ela promove uma oligarquização sem precedentes na política. Não é à toa que esse é um modelo rechaçado por todas as grandes democracias. E ele ainda tem essa componente de destruir os partidos políticos. Ninguém havia ousado propor algo tão nocivo para a democracia brasileira.
Mas por qual motivo ele é tão nocivo?Elege quem tem mais poder e ficarão de fora todas as minorias. Não há possibilidade de representação de grupos de minorias. Só os poderosos locais são eleitos. Aliás, nem todos os poderosos locais. Só os poderosos regionais, os caciques políticos regionais, detentores de grandes fortunas, é que serão eleitos. O modelo encarece muito a disputa eleitoral. As eleições para deputado vão ser pequenas eleições para governador. Esse modelo alijará de vez as pessoas idôneas do processo.
Mas os defensores do sistema afirmam que ele é mais legítimo porque serão eleitos somente os mais votados…
Isso é um argumento primário, simplório. O Congresso não é representação de pessoas. O Congresso é uma representação do povo, representação de propostas e de ideias. O “distritão” foca o voto no indivíduo. Os eleitos pelo “distritão” não representam o povo, representam apenas os poderosos. Esse argumento a favor do “distritão” é infantil e simplório. Não é possível um modelo que não assegure, que não dê garantias de que as minorias tenham participação parlamentar.
Na sua opinião, o que é mais nocivo: o distritão ou o financiamento privado?
As duas são igualmente noviças e muito noviças. Sendo que as duas juntas são uma combinação tóxica que vai comprometer por muitas décadas a qualidade da democracia brasileira. Na Velha República, as eleições eram baseadas em sistemas majoritários que não asseguravam participação de minorias. Essa foi a causa da Revolução de 30. Se o “distritão” e o financiamento empresarial forem aprovados, teremos que aguardar uma nova revolução como a de 1930 para mudar o modelo. Porque o Parlamento vai ser dominado por oligarcas. Não será mais possível uma mudança no plano puramente parlamentar.
Literalmente, o Brasil retrocede 100 anos?É um retrocesso à República Velha.
A institucionalização do financiamento privado após as revelações da Lava Jato é uma sinalização de que o Congresso compactua com a corrupção?
Esse modelo de financiamento é péssimo porque influencia decisivamente as eleições. O financiamento de campanha como está, e que se quer proteger via PEC, assegura a eleição apenas dos escolhidos pelas empresas. É um modelo igualmente pernicioso. E precisamos de eleições baratas. Não é possível se garantir a higidez mínima nas campanhas e o equilíbrio nas chances de disputa mantendo as ações empresariais. Por isso, nós precisamos que o Congresso rejeite essa medida também.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

PCCV EM DEBATE NO PLENÁRIO NESTA QUINTA-FEIRA (21/05)

do  site oficial do sindsalem
Em assembleia, servidores aprovam propostas, mas continuam em mobilização permanente. Nesta quinta-feira (21), reforma do PCCV será debatida no Plenário da Casa. Servidor, compareça às 9h, na galeria!
20/05/2015 
SINDSALEM
Em assembleia geral realizada nesta quarta-feira (20/05), no Plenarinho, mais de 200 servidores decidiram continuar mobilizados e na luta pela reforma do Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV), defasado desde 2011 e negligenciado pelas últimas gestões da Alema.

A assembleia, promovida pelo Sindsalem, contou com a presença dos deputados Cabo Campos e Wellington do Curso, que manifestaram apoio às demandas da categoria.

Na ocasião, os servidores se mostraram descontentes com a contraproposta da Mesa Diretora, que concedeu reposição inflacionária de 8,34%, aumento do tíquete-alimentação de R$500 para R$625, pagamento dos adicionais de qualificação na forma de percentual, mas, simplesmente, ignorou a reforma do PCCV, reivindicação histórica dos servidores e principal bandeira de luta do Sindsalem.

“A categoria aceitou essas propostas, mas, infelizmente, a Mesa 
Diretora não se posicionou sobre o PCCV nem sobre a convocação dos concursados, que são nossos objetivos também. Por isso, a mobilização continua firme e forte” – ressaltou o presidente do Sindsalem, Luiz Noleto.

Em razão do silêncio da Mesa Diretora, o deputado Wellington propôs uma indicação, que contou com a assinatura de mais 13 deputados, para discutir a proposta de reforma do PCCV no Plenário da Casa.

Diante disso, em nome da diretoria do Sindsalem, o presidente Luiz Noleto convoca todos os servidores a comparecerem nesta quinta-feira (21/05) às 9h, na galeria da Alema, para acompanhar os debates sobre o PCCV no Plenário e intensificar a luta pela valorização de nossa categoria! 

Servidor, sua presença é fundamental!

Lista dos 14 deputados que assinaram a indicação da reforma do PCCV:

1 – Wellington do Curso
2 – Valéria Macedo
3 – Adriano Sarney
4 – Fernando Furtado
5 – Zé Inácio
6 – Max Barros
7 – Francisca Primo
8 – Graça Paz
9 – Stênio Rezende
10 – Roberto Costa
11 – Vinícius Louro
12 – Júnior Verde
13 – Cabo Campos
14 – Andrea Murad 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Sobre o idealismo “pós-moderno”, o materialismo determinista e a crítica radical de Marx e Engels



Na atualidade, tornou-se comum a alegação de que a verdade não existe, o que existiria seriam apenas interpretações, pontos de vista particulares (saberes), todos igualmente válidos. E que qualquer tentativa de conhecer a verdade não passaria de pura arrogância e pretensão daqueles que buscam ingenuamente aprisionar a complexidade de nossa existência dentro de limites autoritariamente impostos por uma abordagem determinista qualquer.
Esta visão exerce um inegável fascínio sobre o senso comum e boa parte dos intelectuais que dominam o ambiente acadêmico, uma vez que ela parece conferir uma grande sensação de liberdade, onde as impositivas verdades absolutas do passado são substituídas por interpretações customizadas ao sabor das preferências individuais e até mesmo das conveniências momentâneas. Esta abordagem tem encontrado uma grande adesão, mesmo entre setores combativos dos movimentos sociais que vêem na negação de uma verdade objetiva a afirmação de suas próprias pautas.
Contudo, esta relativização que, num primeiro momento, parece vir ao auxilio daqueles que buscam construir uma sociedade livre de toda a forma de opressão e exploração, não passa de uma ilusão que parte de uma análise superficial da realidade. Busca esconder o fato de que esta ideologia de relativização absoluta não representa mais do que o retorno às velhas ideologias do passado e está a serviço dos interesses das elites que incentivam e aprofundam não só o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância étnica e religiosa, como a exploração dos trabalhadores e do povo pobre em nossa sociedade.

Afinal, ainda que no discurso relativista dos ideólogos pós-modernos “todas as verdades sejam igualmente válidas”, na prática social cotidiana o que vemos é a imposição de uma única verdade, aquela dos que exercem o poder. Do que nos vale a suposta “liberdade” para escolher entre uma infinidade de abordagens e pontos de vista igualmente válidos para analisar a realidade, quando na prática seguimos aprisionados à lógica capitalista que mantém os interesses do Deus-mercado acima de qualquer interesse social ou humano?

A relação entre setores da esquerda e a ideologia relativista que se convencionou chamar de "pós-modernismo" ou, mais apropriadamente, pós-estruturalismo, é o reflexo de uma das maiores tragédias no desenvolvimento do pensamento humano, uma tragédia promovida pelas forças combinadas das duas maiores máquinas de propaganda que a humanidade já foi capaz de produzir: a poderosa e onipresente grande mídia capitalista e o monstruoso aparato de propaganda da burocracia soviética. Por diferentes razões, cada uma delas movida por seus próprios interesses, soterraram a conquista que representa o materialismo dialético, sob grossas camadas de mentiras e distorções.

No final do século XX e neste início do século XXI, amplos setores oprimidos pela hegemonia capitalista e desiludidos, tanto com o racionalismo iluminista do século XVIII quanto com o que o senso comum considera ser a proposta marxista surgida no século XIX, voltaram-se para o irracionalismo e o idealismo que caracterizam a ideologia "pós-moderna" (ou pós-estruturalista) em busca de alternativas teóricas que respaldassem as ações de resistência que foram, e são, impelidas a realizar pelo avanço da opressão e da exploração que tem acompanhado a decadência capitalista.

Tal relação só foi possível porque estes setores oprimidos, traídos tanto pela burguesia liberal quanto pela burocracia stalinista, viram na proposta “pós-moderna” algo que lhes parecia coerente com seu justo rechaço ao racionalismo iluminista e ao determinismo pseudo-marxista, uma vez que a experiência histórica demonstrou tanto a incapacidade do iluminismo em concretizar sua promessa abstrata de liberdade, igualdade e fraternidade; quanto a falência do dito "socialismo real", que não passou de uma deturpação do materialismo dialético engendrada e divulgada pela burocracia sino-soviética ao longo do século XX, onde a dialética foi substituída pelo dogmatismo.

Sobre as abordagens idealistas, inclusive a “pós-moderna”...
Do ponto de vista da filosofia idealista, a base de todos os fenômenos não pode ser encontrada na matéria, mas na vontade divina, na razão universal, na idéia absoluta ou em alguma outra forma de abstração que se distancie da realidade concreta. Assim, a interpretação idealista do mundo nos oferece uma imagem idealizada da realidade, que nega a existência de uma realidade concreta ou a possibilidade de sejamos realmente capazes de compreendê-la através da experiência prática.

Seja através dos idealismos objetivos de Platão (428 a.C. - 347a.C.) e Hegel (1770 - 1831) que reconhecem a existência da verdade mas postula que ela só poderia ser alcançada através do profundo exercício intelectual metafísico; seja através do idealismo subjetivo, divulgado pelo bispo irlandês George Berkeley (1685-1753), que simplesmente nega a existência objetiva de qualquer verdade além de Deus e defende que as coisas existem apenas na medida em que são percebidas pela mente humana ou divina; seja através do idealismo transcendental de Immanuel Kant (1724 - 1804) que reconhece a existência objetiva da realidade mas afirma que não somos capazes de compreende-la plenamente e fixa limites arbitrários para sua compreensão; ou seja através de qualquer outra vertente idealista.

Ao negar ou tentar transferir da realidade concreta para o reino das abstrações metafísicas a busca pela verdade, o idealismo acaba por expressar a necessidade ou conveniência de se evitar a confrontação direta com a realidade objetiva e tenta legitimar a postura daqueles que optam por acreditar apenas no que os agrade ou pareça lhes oferecer algum conforto diante das incertezas da existência. O idealismo expressa também uma posição pretensiosa que tenta impor nossos próprios pontos de vista particulares à realidade, quando o correto parece ser justamente o contrário.

Ou seja, o idealismo, em suas diferentes vertentes, nega ou busca estabelecer limites arbitrários para a investigação da realidade objetiva. Mas a serviço de quem estaria tal esforço por negar ou limitar a busca humana pela verdade, senão daqueles que poderiam se beneficiar com sua negação?

Sobre as abordagens materialistas, inclusive a positivista...
O esforço genuíno para compreendermos a realidade deve ser um exercício de humildade que pressupõem nossa disposição em abrimos mão de nossos próprios anseios e preconceitos para abraçar aquilo que a realidade material objetivamente demonstra ser o correto, ainda que isso se choque com nossas próprias preferências e idealizações. Obviamente, tal postura de desprendimento nos exige um esforço árduo e permanente e, infelizmente, não é capaz de nos eximir de equívocos.

A filosofia materialista empenhou-se sempre em encontrar uma explicação material dos fenômenos, capaz de superar o obscurantismo e misticismo inerente às diferentes correntes idealistas, buscando transpor os limites arbitrariamente estabelecidos para o avanço do conhecimento humano. Na abordagem materialista tais limites arbitrários são substituídos pela busca por limites objetivamente impostos pela realidade concreta.

Ou seja, o materialismo afirma que a verdade não só existe como pode ser conhecida através da experiência prática. De tal forma que o próprio conceito de matéria não é mais do que "a realidade objetiva que existe independentemente da consciência humana e que é refletida por ela1". E o nosso mundo circundante não é outra coisa senão matéria em movimento. Para esta abordagem mesmo as ideias e conceitos mais abstratos, não são mais do que o resultado da atividade de um órgão material (o cérebro humano) e o reflexo de objetos materiais percebidos e processados por este mesmo órgão material.

Obviamente, essa abordagem materialista, subjacente ao racionalismo iluminista e ao determinismo positivista, não poderia estar livre de interferências subjetivas, uma vez que os limites que julgamos impostos objetivamente para a investigação da realidade estão, eles próprios, sujeitos a interpretações subjetivas. Como afirmou Lênin, em sua clássica análise sobre os fundamentos do materialismo dialético, intitulada “As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo”, esperar que a ciência, ela própria uma prática social, fosse imparcial numa sociedade de classes, dividida entre interesses antagônicos, seria uma ingenuidade tão grande quando esperar que as elites capitalistas, de boa vontade, decidissem abrir mão de seus próprios privilégios.

Longe de invalidar a abordagem materialista inerente à ciência legitima, essa constatação apenas reforça a necessidade de uma postura científica humilde e consciente de suas próprias limitações e falibilidade e a importância de seus mecanismos de auto-regulação e meta-análise.

O fato de que a abordagem materialista tenha sido abraçada pela burguesia revolucionária em sua luta para destronar a nobreza e, mais tarde, tenha sido convenientemente abandonada pela mesma classe burguesa quando esta ascendeu ao poder, oferece-nos indícios da força e do potencial revolucionário dessa abordagem.

Na atualidade a filosofia materialista segue com seu conteúdo revolucionário, nos oferecendo ferramentas importantíssimas para revelar a verdade oculta sob as fantasias idealistas alimentadas pela decadente elite burguesa. Os revolucionários não têm porque temer a verdade, a história demonstra que ela é nossa mais poderosa aliada.  Como nos ensina Trotsky: “Expor aos oprimidos a verdade é abrir-lhes o caminho da revolução”.

Uma abordagem materialista conseqüente, mesmo (e principalmente) quando se choca com nossos desejos e expectativas é fundamental para que tomemos o rumo correto diante das maiores adversidades. Não é de se estranhar que, em um dos momentos mais difíceis e decisivos da luta de classes, Trotsky tenha registrado para posteridade as seguintes recomendações:

"Olhar a realidade de frente; não procurar a linha de menor resistência; chamar as coisas pelo seu nome; dizer a verdade às massas, por mais amarga que seja; não temer obstáculos; ser rigoroso nas pequenas como nas grandes coisas; ousar quando chegar a hora da ação2."

Sobre o materialismo dialético...
Mas se por um lado, em relação ao caráter objetivo da realidade e a possibilidade de conhecê-la, o materialismo dialético encontra-se definitivamente no campo da filosofia materialista em oposição a todas as formas de idealismo, por outro, ele também busca ir além das limitações expressas por todas as doutrinas materialistas anteriores, incorporando a dialética para um crítica coerente do determinismo que sempre esteve atrelado às diferentes vertentes materialistas.

Os materialistas dialéticos reconhecem que a realidade é objetiva e independente de nós, ela existe por si mesma e está sujeita a leis que são alheias a nossa vontade. Mas diferentemente do materialismo determinista, para os materialistas dialéticos isso não significa que a realidade seja estática, longe disso, o caráter objetivo da realidade demonstra sua inerente fluidez e dinamismo.

A realidade é concreta e objetiva, mas também está em permanente movimento e transformação. Podemos conhecer a verdade através da experiência prática, mas esta verdade é sempre parcial e transitória e precisa estar permanentemente suscetível à crítica da experiência prática.

E não para por aí, a critica materialista dialética ao materialismo vulgar é ainda mais profunda que o mero reconhecimento do caráter dinâmico da realidade, ela incorpora também a necessidade de superação do abismo entre a teoria e a prática que os ideólogos das mais diferentes correntes filosóficas, tanto idealistas como materialista, insistem em manter e aprofundar.

Em suas Teses sobre Feuerbach, na Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, em A Sagrada Família e em A Ideologia Alemã, Karl Marx (1818 – 1883) e Friedrich Engels (1820 – 1895) desenvolvem o conceito de práxis ao criticar simultaneamente tanto o idealismo quanto as abordagens materialistas de então. O materialismo determinista alegava que os seres humanos são determinados pelas circunstâncias (econômicas, sociais e naturais), enquanto o idealismo vê os seres humanos como determinados pelas ideias (pensamentos, vontades e desejos). Os materialistas vulgares afirmavam que mudamos porque novas circunstâncias nos fazem mudar, enquanto os idealistas de diferentes matizes afirmam que mudamos porque a educação, as novas idéias e os novos desejos nos fazem mudar.

A crítica de Marx é de que o materialismo, sem que tenha incorporado a dialética, "esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos3", enquanto o idealismo "esquece que o educador tem ele próprio de ser educado4". Assim, tanto o materialismo determinista quanto o idealismo, qualquer que seja sua variação, acabam por reproduzir a estrutura da sociedade de classes, ou seja, a exploração do homem pelo homem. Neste ponto, Marx introduz o conceito de práxis revolucionária como "a coincidência da transformação das circunstâncias através da atividade humana5".

A práxis revolucionária é assim entendida como atividade teórico-prática em que a teoria se modifica constantemente a partir da experiência prática, que por sua vez é também constantemente modificada pelo aprofundamento das concepções teóricas, de modo que nem a teoria se cristalize como dogma e nem a prática se degenere em um processo alienado.

Como afirmou o próprio Marx:

“A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica6”.

Ou ainda, como reafirma Lênin em seu clássico tratado filosófico:

"O ponto de vista da vida, da prática, deve ser o ponto de vista primeiro e fundamental da teoria do conhecimento. E ele conduz inevitavelmente ao materialismo, afastando desde o princípio as invencionices intermináveis da escolástica professoral. Naturalmente, não se deve esquecer que o critério da prática nunca pode, no fundo, confirmar ou refutar completamente uma representação humana, qualquer que seja. Este critério é também suficientemente 'indeterminado' para não permitir que os conhecimentos do homem se transformem num 'absoluto', e, ao mesmo tempo, suficientemente determinado para conduzir uma luta implacável contra todas as variedades de idealismo e agnosticismo. Se aquilo que a nossa prática confirma é a única e última verdade objetiva, daí decorre o reconhecimento de que o único caminho para esta verdade é o caminho da ciência assente no ponto de vista materialista. [...] A única conclusão a tirar da opinião partilhada pelos marxistas, de que a teoria de Marx é uma verdade objetiva, consiste no seguinte: seguindo pelo caminho da teoria de Marx, aproximar-nos-emos cada vez mais da verdade objetiva (sem nunca a esgotar); mas, seguindo por qualquer outro caminho, não podemos chegar senão à confusão e à mentira.7"

Esse indissolúvel nexo entre teoria e prática com o objetivo de transformar a realidade foi uma das maiores contribuições do materialismo dialético para o pensamento humano. Ao propor o fim da dicotomia entre teoria e prática, assim como o fim da divisão entre o trabalho manual e intelectual, a abordagem materialista dialética desvenda os mecanismos de alienação nas sociedades de classes e convoca todos os interessados na real transformação da sociedade a não só refletir sobre a realidade que nos cerca, como, também, tomar parte ativa nas lutas e questões prementes de nossa época.

Na atualidade, a negação do materialismo determinista é um sentimento justo e legítimo que reflete a experiência histórica concreta com as revoluções burguesas e as ditas revoluções socialistas do século XX, que demonstraram ser incapazes de libertar a humanidade das amarras da opressão e da exploração. Mas para fazer avançar o conhecimento e as práticas sociais vigentes neste inicio do século XXI, precisamos ir muito além da mera negação das experiências do passado, precisamos buscar uma solução que nos aponte um novo rumo, sem que retrocedamos ao idealismo que, tão pouco, mostrou-se capaz de nos oferecer saídas.

A superação para esta tragédia que faz, de maneira quase hegemônica, o pensamento humano neste início do século XXI voltar-se ao obscurantismo e ao irracionalismo pré-renascentista passa, necessariamente, pelo resgate de uma abordagem que contraponha simultaneamente o materialismo ao idealismo e a dialética ao determinismo, rompendo as fronteiras entre os diferentes campos do conhecimento, assim como aquelas supostamente existentes entre teoria e prática. Afinal, como sintetizou Marx: "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo!8".

1 LÊNIN, V. I. Materialismo e empiriocriticismo. Edições Avante. Lisboa, 1982.
2 TROTSKY, Leon. O Programa de Transição.
3 MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach. Trad. Castro e Costa, L.C. Martins Fontes. São Paulo, 2002.
4 Idem
5 Idem
6 Idem
7 LÊNIN, V. I. Materialismo e empiriocriticismo. Edições Avante. Lisboa, 1982.
8 MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach. Trad. Castro e Costa, L.C. Martins Fontes. São Paulo, 2002.