Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de outubro de 2011

DESEMPREGO E MISÉRIA DA ECONOMIA.

O espectro das favelas latino-americanas, asiáticas e africanas apavora a refinada social democracia enquanto seus economistas lutam para evitar o velho e corrosivo longo prazo na recuperação do ciclo. Por JOSÉ MARTINS, economista que escreve mensalmente um Bolentin Econômico.

Os capitalistas não sabem o que fazer com o desemprego da força de trabalho no centro do sistema. Em um sinistro relatório sobre a situação do mercado de trabalho nas economias centrais, a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (CDE) aponta para uma situação de inédito travamento do mercado de trabalho nos EUA, Europa e Japão. 1 Enquanto o desemprego permanece obstinadamente elevado nas principais economias do sistema, o risco de que esse ele permaneça neste nível elevado de maneira durável aumentou de maneira proporcional ao aumento do desemprego de longo prazo, quer dizer, número de desempregados que procuram emprego há mais de um ano.

Nos Estados Unidos, a proporção dos desempregados procurando trabalho há mais de um ano triplicou e atingiu em meados de 2011 um nível recorde de mais de 30 por cento da massa total de desempregados. Em 2007, antes da última crise, essa proporção de desemprego de longo prazo não passava de 10 por cento. Em 2010, para uma média na OCDE de 32.4 por cento, essa proporção já atingia mais de 40.0 por cento na França (40.1), Bélgica (48.8), Itália (48.5), Alemanha (47.4), Espanha (45.5), Portugal (52.3), Grécia (45.0), etc.

Essa proporção dos desempregados de longo prazo é socialmente explosiva. As pessoas nesta situação são as maiores candidatas a cair na situação de miséria absoluta e nas camadas mais excluídas da economia de mercado. Contingentes enormes da população das antigas sociedades do “bem-estar social” e da social democracia, do pós-guerra, deslizam com incrível velocidade para a condição de miseráveis do terceiro-mundo. O espectro das favelas latino-americanas, asiáticas e africanas apavora a refinada social democracia do imperialismo. Na apresentação do sinistro relatório, Angel Gurría, secretário geral da OCDE, lança um apelo dramático para os governantes da OCDE: “De todas as facetas da crise financeira e econômica, o desemprego elevado é a manifestação mais visível do desafio de um crescimento durável. Trata-se da visão humana da crise. Os governantes não podem deixar de reagir. Os desafios de um desemprego elevado e durável, a melhoria das possibilidades de emprego e a garantia de adequada segurança social, devem estar no topo da agenda política”.

MUDANDO O DISCURSO – O discurso não foi sempre assim. Antigamente, até a grande Depressão dos anos 1930, pelo menos, a economia política dos capitalistas ainda encarava com certa ingenuidade o problema do emprego da força de trabalho no momento da crise econômica. Opunha-se, ferozmente, a qualquer intervenção política que impedisse a livre elevação da taxa de desemprego. No longo prazo, diziam eles, o livre jogo do mercado (oferta x demanda) se encarregaria de reestabelecer seu “ponto de equilíbrio” – os salários cairiam a um nível suficientemente baixo para que os capitalistas tivessem interesse de recontratar os trabalhadores, aumentar novamente a produção, os salários, etc.

Pura apologia das virtudes do mercado para esconder a necessária elevação da exploração dos trabalhadores a cada ciclo econômico. Porém, com os estragos provocados pela sucessão dos grandes choques periódicos de superprodução de capital, no século 20, essa doutrina da estabilização automática dos mercados foi caindo em desuso pelos capitalistas. Continua com livre curso apenas nas faculdades de Economia. O problema é que ela é de difícil execução prática: quem vai colocar o guiso no gato, quer dizer, segurar a barra política e social – salvar os capitalistas da fúria das massas enquanto as forças endógenas do capital se ajustam morosamente em direção do “ponto de equilíbrio” que só existe nos insonsos manuais de microeconomia?

Depois das criativas catástrofes sociais e geopolíticas do regime capitalista ocorridas nos últimos oitenta anos, os economistas do Estado organizado trocaram o discurso – agora eles apregoam que o obstáculo à recuperação e ao crescimento econômico é justamente a elevada taxa de desemprego e o consequente subconsumo das massas. Essa velha tese populista requentada e travestida de moderna macroeconomia keynesiana mantém o núcleo teórico daquela velha economia neoclássica de antes da Grande Depressão: os gastos dos consumidores determinam a dinâmica da produção e dos investimentos.

E a origem do lucro, repetindo a velha economia neoclássica, está na circulação, no momento da venda da mercadoria. Essa é a maior imbecilidade jamais cometida na história do pensamento econômico. Por isso a economia política dos capitalistas é conhecida como economia vulgar. Apenas centralizaram a aplicação dos mecanismos de ajuste da oferta e demanda de trabalho: do livre jogo do mercado para o Estado. Por isso, a dinâmica da crise, hoje em dia, é tratada apenas como um assunto de política econômica e monetária dos governos.

Como se recupera de uma crise? Para o senso comum do mercado é muito simples. Até o Lula e a Miriam Leitão sabem de cor e salteado a receita infalível: basta o governo aplicar medidas de estimulo ao consumo individual. A economia vulgar é animada por gente perfeitamente adequada às suas grosseiras formulações. Na prática, então, trata-se de executar políticas fiscais e monetárias para aumentar os meios de pagamento e de crédito na economia para que os consumidores voltem a comprar mercadorias e, com isto, os desesperançados capitalistas voltem a investir e contratar novos trabalhadores, etc. Tomando os devidos cuidados, é claro, com a inflação, a queridinha das instabilidades e incertezas do sistema financeiro.

BARULHO EM WALL STREET – Não foi exatamente essa popular macroeconomia de se botar pilha na demanda e se carregar os mortos-vivos para o próximo ciclo que se fez no centro do mundo, nos últimos três anos, com os voos rasantes dos helicópteros de Bernanke espalhando trilhões e trilhões de dólares do Tesouro pelo mercado? Se com essa receit keynesiana a economia tivesse se recuperado com a exuberância dos ciclos econômicos da era Greenspan, antecessor de Bernanke na direção do banco central dos EUA, não só a teoria quanto a nova prática de administração estatal do mercado teriam mantido suas inabaladas virtudes.

Mas no meio do caminho aparece uma inconveniente taxa de desemprego de 9.1 por cento. Impassível. Insensível. Por que essa pentelha de uma taxa não se reverte e desaparece em novo período de expansão do capital? Como fazia na era Greenspan?
Não dá para se esperar pelo longo prazo para se alcançar o “ponto de equilíbrio” – não é isso que a moderna economia capitalista sabe muito bem? Quando esse angustiante tempo de espera se metamorfoseia em manifestações por mudanças radicais em todas as partes do mundo, desde o Cairo até Wall Street – os donos do mundo resolvem classificar o desemprego como a verdadeira “crise nacional”. Como fez na última semana o cada vez menos poderoso presidente do banco central dos Estados Unidos: “A situação do desemprego é a „crise nacional‟, declarou Bernanke respondendo a questões depois de palestra em Cleveland, dia 28 de Setembro. Obama está em campanha pela aprovação do Congresso de $447 bilhões para seu programa de emprego centrado em reconstrução da infraestrutura e ampliação dos cortes das taxas de contribuições dos empregadores sobre as folhas de pagamento.”

Mistério na Corte de Washington. Não se pode evitar o longo prazo eternamente. Será que, ao contrário das necessidades práticas de governabilidade da luta de classes, essa taxa de desemprego de 9.1 por cento não precisaria aumentar um pouco mais, para resolver o problema do capital? O plano de Obama, se aprovado pelo Congresso, o que dificilmente deve acontecer, não jogaria mais gasolina na fogueira? Esse é o grande mistério do ciclo econômico atual. Trataremos do dito cujo no

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Tela quente


Do Professor e militante RICARDO ANTUNES sobre oa últimas mobilizações que rolam no mundo.

--------------------------------------------------------------------------------
A percepção de que os de cima saqueiam o Estado, fazendo minguar recursos para saúde e educação, chegou à periferia: a tela está ficando quente
--------------------------------------------------------------------------------



O ano de 2011 começou com a temperatura social alta: na Grécia, várias manifestações se sucederam, repudiando o receituário da constrição de tudo que é público em benefício das grandes corporações. E a pólis moderna presenciou uma nova rebelião do coro.



Depois, veio a revolta no mundo árabe: cansados do bin�?mio ditadura e pauperismo, riqueza petrolífera e fruição diamantífera dos clãs dominantes, a Tunísia deu o pontapé inicial. A forte revolta popular, com boa organização sindical, derrubou a ditadura de Ben Ali.

Os ventos rapidamente sopraram para o Egito: manifestações plebiscitárias diuturnas na praça Tahrir, conectadas pelas redes sociais, exigiam dignidade, liberdade e o fim da ditadura de Mubarak.

Seguiram-se manifestações na Argélia, na Jordânia, na Síria e na Líbia, dentre tantas outras partes que ardem no mundo do combustível fóssil. E Gaddafi viu seu poder desmoronar.

Em março, explodiu o descontentamento da "geração à rasca" em Portugal. Mais de 200 mil em Lisboa, jovens e imigrantes, precarizad@s, sem trabalho e tratados como coisas. É emblemático o manifesto do movimento Precári@s Inflexíveis, que dá a sintomatologia desse quadro: "Somos precári@s no emprego e na vida. Trabalhamos sem contrato ou com contratos a prazos muito curtos. (...) Somos operadores de call-center, estagiários, desempregados, (...) imigrantes, intermitentes, estudantes-trabalhadores (...) Não temos férias, não podemos engravidar nem ficar doentes. Direito à greve, nem por sombras. Flexissegurança? O "flexi" é para nós. A "segurança" é só para os patrões.

(...) Estamos na sombra, mas não calados. (...) Com a mesma força com que nos atacam os patrões, respondemos e reinventamos a luta. Afinal, nós somos muito mais do que eles. Precári@s, sim, mas inflexíveis".
Seguiram-se os indignados da Espanha: o que dizer quando a taxa de desemprego para os jovens de 18 a 24 anos, segundo a Eurostat, é de 47%? A única certeza que eles têm é que, estudando ou não, são sérios candidatos ao desemprego, perambulando atrás de trabalho precário.

Enquanto isso, no Chile, as famílias se endividam, vendem suas casas para manter seus filhos nas universidades, quase todas privatizadas. É por isso que há no país um explosivo e maciço levante estudantil, com apoio dos pais, dos professores e da opinião pública, exigindo mudanças profundas. Depois foi a vez de a Inglaterra ferver. Começou na cordata Londres. Mais um trabalhador negro assassinado pela polícia, e os jovens pobres, negros, imigrantes e desempregados de Tottenham e de Brixton se rebelaram, sabendo que a polícia britânica é áspera quando a cor da pele é diversa.



Em poucos dias, atingiram Manchester e Liverpool. A percepção de que os de cima saqueiam o Estado, minguando os recur sos para saúde, educação e previdência, chegou à periferia.

E é bom recordar, com Tariq Ali, que a polícia nunca foi responsabilizada pela morte de mais de mil pessoas sob sua custódia, desde 1990, sendo os negros e imigrantes presença recorrente.

Também é bom recordar que as revoltas contra o "pool tax" geraram grande descontentamento social e político contra o neoliberalismo, ajudando a selar o fim do governo de Thatcher.

Essa miríade de exemplos, que aflora tantas transversalidades entre classe, geração, gênero e etnia, é o sinal dos novos tempos.
A tela está ficando quente.

--------------------------------------------------------------------------------
RICARDO ANTUNES, é professor titular de sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Seu novo livro, "O Continente do Labor" (Boitempo), está no prelo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O AMAZONAS DESEMBOCA NO NILO.



Para a recuperação e sobrevivência do capital no Egito é necessário que as suas classes dominantes e seu Estado corrompido pelo imperialismo norte-americano e sionista rebaixem ainda mais as condições miseráveis da população. Essa é a base material da revolução egípcia. Por JOSÉ MARTINS.


Para acompanhar as rebeliões que se multiplicam no Magreb, norte da África e outras economias do Oriente Médio há que se levar em conta os movimentos recentes da globalização do capital. São movimentos simples, perceptíveis a olho nu. O difícil é compreender suas formas inusitadas e a rapidez com que estão a se reproduzir em toda crosta econômica terrestre.

Vejam, por exemplo, o que se passa atualmente nas relações econômicas entre Brasil e China, duas economias dominadas no tabuleiro geoeconômico internacional. Em 2010, os novos investimentos dos capitalistas chineses na produção (indústria) no Brasil alcançaram quase US$20 bilhões. Quase a metade do total de US$ 48 bilhões de investimentos externos diretos (IED) que entraram no país no ano passado. Só este fato já revela uma clara reformatação das tradicionais relações econômicas internacionais. Até poucos anos atrás, as economias dominadas só importavam capital das economias dominantes e estavam longe de se interconectar pela expansão global das suas próprias empresas. A realidade do capital está a mudar. E coisas importantes a acontecer.

NO CORAÇÃO DA AMAZÔNIA – A maior parte dos investimentos dos capitalistas chineses (US$16 bilhões) no Brasil em 2010 foi na área das commodities – minérios e agro-negócio. Para abastecer o “chão de fábrica do mundo” de matérias primas agrícolas e industriais. Mas não é só essa dimensão da utilidade (valor de uso) do processo que conta. Essa justificativa liberal só serve para esconder o principal, a extraordinária valorização (lucro) dos capitais investidos.

O restante dos investimentos chineses no Brasil no ano passado (quase quatro bilhões de dólares) foi em setores de infraestrutura, como energia elétrica, e, finalmente, manufaturas. Aqui se localiza a natureza mais profunda destes movimentos de capitais. Os investimentos dos capitalistas chineses nas indústrias manufatureiras brasileiras (automóveis, eletrodomésticos, máquinas e equipamentos, etc.) foram equivalentes aos dos japoneses no mesmo período.

Para abastecer o chão de fábrica do mundo? Não, para superabastecer de lucros seus cofres. Sem esquecer os capitalistas brasileiros que também participam do negócio (joint ventures).

É nesses setores de manufaturados industriais que aparecem melhor novas formas de globalização. E surgem as novíssimas “indústrias mundiais”. Como na produção de motocicletas em Manaus, no coração da Amazônia:

“Nos setores de manufaturados, a atuação dos chineses muitas vezes começa pela importação maciça, o que causa desconforto aos produtores locais. É o caso da Kasinski, que traz do exterior, principalmente da China, 80% das peças para as motos fabricadas em Manaus. O segmento de motopeças é um dos que mais sofrem com a importação, o que deu origem à discussão da adoção de um novo Processo Produtivo Básico (PPB) para o setor de motocicletas na Zona Franca de Manaus. Esse movimento, porém, deve ser feito com parceiros chineses, que devem desembarcar no país para fabricar componentes num formato de "cluster" (arranjo produtivo local).


Quando a CR Zongshen - uma joint venture de capital nacional e chinês - comprou a Kasinski em Manaus, a fábrica tinha capacidade para 20 mil unidades ao ano. A partir da aquisição, depois de um total de US$ 80 milhões de investimentos, ela foi ampliada para 110 mil unidades em 2010. Segundo o presidente da CR Zongshen, Claudio Rosa Júnior, uma nova aplicação de US$ 45 milhões deve fazer com que a fábrica chegue até o início de 2013 com capacidade ainda maior, de 180 mil unidades.


Os investimentos da CR Zongshen não devem parar por aí. A empresa, diz Rosa, deve acelerar os investimentos para montar um grupo de fornecedores de motopeças no formato de cluster (um arranjo produtivo local), o que deve consumir nos próximos anos investimentos estimados em pelo menos US$ 100 milhões. A empresa faturou R$ 200 milhões no ano passado e prevê aumento de receita de 300% para este ano, reproduzindo, segundo Rosa, praticamente a mesma escala de evolução de faturamento de 2009 para 2010. Nos planos da companhia, a produção da fábrica brasileira não terá como destino apenas o mercado doméstico. ‘O Brasil deve servir de plataforma de exportação para todas as Américas’, diz Rosa.”


EMPRESÁRIOS CONFUCIANOS – Ninguém duvide que os capitalistas brasileiros também remetam massas consideráveis de IED para a China. São centenas de pequenas, médias e grandes empresas industriais do Sudeste e Sul do país, principalmente, que instalam suas filiais na China. Fazem joint ventures com capitalistas chineses nas Zonas Francas de Shanghai, Shenzhen, etc. Em busca do quê? De lucros maiores do que conseguiriam em seu país de origem.



Esses movimentos da globalização são avassaladores. E destruidores de ideologias. O que diriam, por exemplo, aqueles partidários dos ciclos longos, crise permanente (ou estrutural) e outras contorções espirituais, vendo um dilúvio de capital fictício chinês se transformando em clusters para produzir no meio da floresta amazônica cerca de 200 mil motocicletas por ano? Capitalistas industriais nem um pouco preocupados com títulos públicos, juros especulativos, bolhas, etc., mas apenas com montanhas de valor e de lucros industriais?

Esse é o movimento cada vez mais predominante (e determinante) no mundo do capital. Como na Kasinski, empresa situada na Zona Franca de Manaus que era propriedade, até pouco tempo, de um inovador empresário shumpeteriano nacional, agora engolido por espertos empresários confucianos. Do velho capital nacional ficou só o nome do Sr. Kasinski.

O mundo gira rápido. O mais importante disso tudo é levar a sério esse processo de valorização real (industrial) para entender como os capitalistas conseguem superar suas crises periódicas, como ocorre atualmente. É por isso que não existe crise permanente, mas crises periódicas em permanência. Se não ocorresse essa corrosiva reprodução ampliada de novos e inusitados espaços de valorização (lucro) por todos os poros do globo o capital desabaria catastroficamente aos primeiros sinais de mais um período de crise.

ÀS MARGENS DO NILO – Mas o mesmo processo também pode levar a revoluções sociais. É o que se passa atualmente na extensa região que se estende do Magreb ao Oriente Médio, onde a população também sente as dores daquela mesma dinâmica capitalista. Aqui o processo (pelo menos sua intensificação) é mais recente. E a população parece não concordar com o que os capitalistas lhes reservaram. Como no Egito, onde os capitalistas e sua nova junta militar, instalada pelos Estados Unidos e Israel para substituir seu cão de guarda anterior Hosni Mubarak, ainda encontram muitas dificuldades para restabelecer a ordem e o progresso da nação. Vejam trechos de interessante matéria do jornal egípcio Al-Masry Al-Youm:

“Industriais egipcios cortaram a produção porque os bancos continuam fechados, enquanto os sindicatos de trabalhadores levaram a revolução no país como sinal para interromper o trabalho e reivindicar melhores salários e condições... O governo sustentado pelos militares reduziu suas previsões de crescimento econômico, e o exército conclamou os egípcios a não fazerm greves, apelando a seus sentimentos patrióticos. Os militares disseram que as paradas na produção são desastrosas para a economia. Mas os sindicatos, entusiasmados pela derrubada do presidente Hosni Mubarak, na semana passada, exigem o atendimento às suas reivindicações. Mais de 12000 trabalhadores das estatais Misr Spinning e Weaving entraram em greve na quarta-feira. Na cidade costeira Damietta, cerca de 6000 trabalhadoras têxteis tambem declararam greve. Muitos dirigentes da indústria de alimentos e da tecelagem estão sofrendo greves ou mandaram os trabalhadores para suas casas por medo que as ações sociais se espalhem. Companhias como a fabricante de cerâmicas Lecico já atenderam a muitas reivindicações dos sindicatos. A indústria textil Arafa fechou as portas das suas unidades fabricantes de roupas em Tenth Ramadan City desde quarta-feira, quando os operários entraram em greve. ‘O movimento foi totalmente pacífico’, disse o dirigente Ahmed Kamal Selim. ‘Nós estamos analizando as reivindicações e algumas serão atendidas; quanto a outras, temos que discutir os valores’. ‘O exército deve falar mais pesado com os trabalhadores’, disse Mohamed Said Hanfy, presidente da Federação das Indústrias Metalúrgicas. ‘Muitos trabalhadores não têm problema nenhum, mas querem aproveitar a oportunidade apresentada pela situação política”

As classes dominantes do Egito relatam os conflitos com os trabalhadores como se tratasse de um país e de uma economia qualquer. Como se fossem nos EUA, na Alemanha, no Japão, ou coisa parecida. Pensam como seus economistas. E fazem de conta que essas reivindicações por melhores salários, atendimento à saúde, melhores condições de trabalho, moradia, etc. não estariam a acontecer se não fosse a “situação política”. Esquecem (ou fazem de conta) que esta última só explodiu por causa das condições miseráveis de existência da população que as atuais reivindicações dos grevistas podem quando muito amenizar. Esquecem (ou fazem de conta) que para a recuperação do capital industrial no Egito e para que ele continue existindo há a inescapável necessidade de que elas mesmas (classes dominantes egípcias e seu Estado corrompido pelo imperialismo norte-americano e sionista) agravem ainda mais aquelas condições miseráveis da população.

É o resultado desse embate de classes – às margens do Nilo, nas ruas das suas principais cidades e entre os muros das suas imundas Zonas Livres e suas “indústrias mundiais” – que decidirá o destino da revolução egípcia e o futuro da sua população trabalhadora.

Núcleo de Educação Popular - 13 de Maio São Paulo, SP.
CRÍTICA SEMANAL DA ECONOMIA
ASSINE AGORA A CRÍTICA Ligue agora para (11) 9235 7060 ou (48) 96409331 ou escreva um e-mail para criticasemanal@uol.com.br e saiba as condições para a assinatura!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Egito: a esfinge de estômago vazio.

A globalização industrial no Magreb e norte da África está levou a uma inaudita espiral de desemprego, miséria e fome absoluta para a população. É isso que move as atuais rebeliões sociais na região. Por JOSÉ MARTINS



De Tunis ao Cairo, povos lutam para se desfazer de seus grilhões. Esse é título da coluna de Silvia Cattori em seu indispensável blog Political Writings. Veja como a sensibilidade de uma combatente jornalista é capaz de descrever com perfeição a natureza das coisas: “Quando, em 17 de Dezembro de 2010, um jovem estudante tunisino, Mohamed Bouazizi, levado ao desespero, se imolou em fogo, depois que uma policial seqüestrou os poucos legumes que ele vendia para garantir dignamente as necessidades de sua família, quem poderia imaginar que seu gesto iria incendiar o coração de milhões de pessoas, tomar conta da Tunísia, conduzir um mês depois à fuga de Ben Ali e à queda do seu regime, livrar povos inteiros de seus medos e levá-los à revolta?”

Aqui é o estômago que comanda as idéias e as rebeliões políticas no norte da África e Oriente Médio. A fome que assola a população foi o estopim de rebeliões simultâneas do Magreb (Argélia, Marrocos e Tunísia) ao Egito, Jordania, Iêmen, etc. A questão palestina e outros conhecidos problemas do chamado mundo árabe não determinam os atuais acontecimentos. Não estamos frente a meras motivações étnicas, nacionais, religiosas ou, como preferem os ideólogos do império, a um “choque de civilizações”. Não se trata de cristãos (e judeus) de um lado e de muçulmanos do outro. Trata-se de capital (e capitalistas) de um lado, e trabalhadores do outro. As causas dessas atuais rebeliões são predominantemente materiais, quer dizer, econômicas.

Diferentemente de muitas outras grandes produtoras de petróleo da área, como a Líbia e as demais localizadas em torno do Golfo Pérsico, as economias atualmente convulcionadas do Magreb, Egito, etc. não têm muito petróleo. São marcadas mais por uma nova estrutura econômica criada pela onda de globalização produtiva (indústrias montadoras e agronegócio exportador) das últimas décadas. Compõem um novo e lucrativo espaço de valorização (lucro) das empresas maufatureiras e agroindustriais. É essa nova base de imperialismo econômico – introduzida nestes países de maneira mais intensa neste início de século 21 – que aumentou rapidamente a miséria da sua população e agora transforma a natureza dos conflitos políticos da região.



PULANDO DO NAVIO – No Egito – com cerca de 80 milhões de habitantes a serem tosquiados pelo novo capital globalizado e coalhado de montadoras globais, é a velhíssima luta de classes que ultrapassa a geopolítica e entra em cena de forma mais decisiva, acelerando o processo social. Os dirigentes das gigantes empresas globais sentem a porrada. Vislumbrando nas rebeliões atuais sinais de derretimento do Estado e ingovernabilidade burguesa, os capitalistas são os primeiros a pular do navio:

“Empresas internacionais estão interrompendo as operações no Egito, enquanto uma revolta contra o governo local entra no sétimo dia, depois de deixar ao menos 125 mortos. A cervejaria Heineken, a empresa do setor químico AkzoNobel, a companhia de produtos de consumo Unilever e as montadoras Nissan Motor e General Motors (GM) estão entre as empresas que suspenderam a produção no país. A Heineken informou que interrompeu as operações, retirou 25 funcionários estrangeiros em aviões particulares e pediu que os empregados egípcios fiquem em casa. A cervejaria emprega 2.040 pessoas no país. Um porta-voz da Unilever informou que as operações da companhia no Egito estão suspensas desde quinta-feira. Segundo ele, a empresa pretende retirar dois funcionários e 12 consultores estrangeiros do país assim que possível.”

“A atual situação política no Egito afetou a maior parte das indústrias, inclusive as automotivas. A instabilidade vivida pelo país fez com que a maioria das fábricas fechasse as portas por tempo indeterminado. A preocupação, além da falta de peças, é de que os veículos não cheguem a seus destinos. Até agora, Mercedes-Benz, BMW, Nissan e General Motors já emitiram comunicados oficiais, informando a suspensão de suas atividades. Já a Volkswagen, por enquanto, só parou as linhas de montagem, mas é provável que em breve outros setores também sejam fechados, para evitar vandalismo. A Mercedes ainda tomou a ação de retirar seus trabalhadores estrangeiros do país, para garantir sua segurança. O Egito hoje é um dos maiores produtores da região, tendo presentes em seu território muitas marcas como Brilliance, BYD, Chery, Chevrolet, Daewoo, Fiat, Hyundai, Isuzu, Jeep, Jinbei, Lada e Mahindra, além das citadas acima.”

Como na China, no México, no Haiti, etc., as “empresas mundiais” instaladas no Egito foram centralizadas em plataformas de exportação ou Zonas Francas, paraísos de desregulamentação, onde essas empresas são totalmente isentas de impostos e demais taxas, com liberdade para movimentar entrada e saída de capitais, ausência de leis trabalhistas, etc. É o que explica orgulhosamente em seu site a própria General Authority for Investiment [Autoridade Geral de Investimento] do governo egípcio: “O Egito tem incentivado a criação de Zonas Francas [Free Zones] desde o início dos anos 1970, com o objetivo de aumentar as exportações, atrair investimentos externos, introduzir tecnologias avançadas e criar mais oportunidades de emprego.

As Zonas Francas estão localizadas no território nacional mas são consideradas áreas ao largo do território [offshore]. Os investidores que operam dentro das Zonas Francas exportam acima de 50% de sua produção total. Dentre os incentivos e garantias da Zona Franca estão a isenção permanente [life time, no original] de todos os impostos e taxas; ausência de qualquer regulamentação sobre importações/exportações; opção de vender pequena parte da produção no mercado interno, desde que sejam pagas as tarifas alfandegárias; ausência de regulamentações trabalhistas. Para facilitar as operações de importações/exportações, as Zonas Francas estão usualmente localizadas junto a portos marítimos e aeroportos”

A chamada escola neoclássica da Economia Política corresponde à visão mais liberal e vulgar da economia e do mundo capitalista. É a visão econômica mais didática e popular, predominante tanto na academia quanto nos governos e na mídia em geral. É a visão apologética da naturalidade da propriedade privada, do Estado, do mercado e do capital. Qual cidadão comum poderia imaginar um mundo sem essas coisas tão “naturais”? Os neoclássicos (e seus primos keynesianos) existem para negar ideologicamente essa possibilidade.



As classes dominantes no Egito (e nas demais economias do norte da África) crêem piamente nas promessas dos manuais neoclássicos de Economia Internacional ensinada nas faculdades de Economia do mundo todo. E fizeram zelosamente o trabalho sujo de encarcerar sua faminta população nas imundas linhas de montagem industrial das Zonas Francas e projetos de agronegócios. Mas até agora, a despeito de uma enorme satisfação (e gordos lucros, off course) dos capitalistas estrangeiros e nacionais com a rígida aplicação daqueles manuais, os resultados são muito diferentes que fora prometido à população trabalhadora pela propaganda imperialista das maravilhas do livre mercado. Os resultados desta aventura das burguesias do Magreb e norte da África estão a levar a uma inaudita espiral de desemprego, miséria e fome absoluta nos seus países. A aplicação prática da ideologia econômica liberal, que prometia felicidade e bem-estar para todos, acabou fornecendo o combustível para as atuais rebeliões populares.

EXTASE LIBERAL E RESSACA DO CAPITAL – Não é por acaso que para qualquer aspecto político, geopolítico, cultural, religioso, etc. que se considere nas atuais rebeliões a economia está presente. As razões estão no recente processo de globalização que inundou a região de capital e sua ação altamente dissolvente de velhas estruturas nacionais. No Egito, por exemplo, a principal economia da área, as privatizações e a forte abertura das fronteiras ao capital globalizado resultaram, no período 2003/2007, em um forte afluxo de investimentos externos diretos (IED). Vejam os números oficiais a respeito, apresentados em recente relatório da Economic and Social Commission for Western Asia (ESCWA).

2003 – US$ 450 milhões;
2004 – US$ 2,161 bilhões;
2005 – US$ 5,376 bilhões;
2006 – US$ 10,043 bilhões;
2007 – US$ 11,578 bilhões.

Em 2007, o fluxo liquido de IED no Egito era cerca de 25 vezes maior que em 2003. Como percentagem do PIB, pulou de mero 0.6% em 2003 para 8.8% em 2006. Essa velocidade de expansão do IED foi disparadamente a maior do mercado mundial. Na América Latina, por exemplo, o volume de entrada de IED no mesmo período não chegou a dobrar. Para a China – reconhecidamente um dos maiores receptores mundiais deste tipo de investimento – o fluxo de entrada saltou de US$ 53,5 bilhões para US$ 69,5 bilhões. Apenas cerca de 30% maior.

Essa enorme onda de investimentos resultou em uma taxa muito elevada de crescimento do PIB – de aproximadamente 4% de crescimento em 2004 para mais de 7% em 2008. As reservas internacionais também subiram velozmente, de US$ 14,9 bilhões em 2004 para US$ 34,7 bilhões em 2008. Mas havia uma pedra no meio do caminho. A crise de 2008/2009 interrompeu bruscamente esse “crescimento brasileiro” da economia egípcia. E a superprodução da fase anterior de êxtase liberal transformou-se em uma ressaca do capital: queda na produção, crescentes déficits macroeconômicos e níveis socialmente inaceitáveis de desemprego.

Em detalhado trabalho do economista Samir Radwan tratando desse impacto da crise global de 2008/2009 sobre o Egito, encontramos as seguintes conclusões: “A crise econômica e financeira global se transmitiu negativamente na economia egípcia de maneira muito particular, desde meados de 2008. O impacto foi mais pronunciado no setor real da economia do que no setor bancário. O impacto na economia real refletiu-se nos seguintes indicadores: 1) declínio do crescimento do PIB de 7,2% em 2007/2008 para aproximadamente 4% em 2008/2009; 2) redução do fluxo de IED e declínio do investimento interno; 3) aumento do retorno de migrantes e expectativa de queda nas remessas; 4) pressões crescentes no balanço de pagamentos; 5) colapso das bolsas de valores; 6) desaceleração do crescimento de setores econômicos, especialmente no setor do turismo, manufaturas e Canal de Suez.

Observação da Crítica: Esse fator dos migrantes é muito importante para as economias da região. Uma massa enorme de trabalhadores migra para o exterior (principalmente para os países produtores de petróleo do Golfo Pérsico) e remetem grande parte dos seus rendimentos para a família que ficou no Egito, Tunísia, etc. São volumes relativamente elevados para o balanço de pagamentos do país. Agora, com a crise atingindo o investimento e emprego naqueles países petrolíferos, os migrantes retornam para o Egito, o que origina dois problemas: um macroeconômico, na medida em que o grande volume de divisas remetidas anteriormente desaparece e deixa de ser contabilizado no balanço de pagamentos; outro social, na medida em que o retorno desses trabalhadores agora engrossa as multidões de desempregados em seu país de origem e suas famílias vêem desaparecer suas fontes de sustento.

A prolongada recessão do mercado de trabalho e a conseqüente deterioração social são os mais sérios aspectos da crise econômica e financeira global no Egito. O maior impacto imediato da crise foi a incapacidade do mercado de trabalho se ajustar, exacerbando o problema do desemprego, e agravando a situação de grupos específicos como as mulheres e os jovens”

O show capitalista tem que continuar. Crescimento econômico ou revolução. Para a economia voltar a crescer o capital tem que recuperar a taxa de lucro do período de expansão do ciclo anterior. Mas para isso os trabalhadores devem receber menos pelo seu trabalho e pagar mais pelos seus alimentos. É esse processo que leva milhões de pessoas, como Mohamed Bouazizi, ao desespero e à morte. Resumindo: a exploração e miséria dos trabalhadores devem aumentar para que o capital se recupere da crise. Mas essa necessidade destaca dois problemas muito graves na economia do Egito e vizinhança: o preço da força de trabalho já é muito baixo e o preço dos alimentos está mais alto do que nunca. Dá para arrochar ainda mais? Trataremos desses problemas no próximo boletim.

Para receber semanalmente em seu email análises econômicas como esta que você acabou de ler, assine e divulgue o boletim CRÍTICA SEMANAL DA ECONOMIA, do 13 de Maio, Núcleo de Educação Popular, S.Paulo. Em 2011, estamos completando 25 ANOS DE VIDA. Vinte e quatro anos informando e educando a classe trabalhadora! ASSINE AGORA A CRÍTICA Ligue agora para (11) 9235 7060 ou (48) 96409331 ou escreva um e-mail para criticasemanal@uol.com.br e saiba as condições para a assinatura!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

G-20 termina em fracasso em Seul

Reunião dos chefes de Estado das 19 maiores economias do mundo e a UE termina sem qualquer medida contra a guerra cambial

Da redação do Opinião Socialista

Como era esperado, terminou em fracasso a reunião do G-20 realizada nesses dias 11 e 12 de novembro em Seul. Após dois dias de discussões, os chefes de Estados das 19 maiores economias do mundo e a União Europeia divulgaram um documento que não aponta qualquer perspectiva de resolução para a guerra cambial travada entre os países.

Entre as ações anunciadas pelo vago comunicado final está a criação um sistema para detectar desequilíbrios financeiros e cambiais. Tal medição ficaria a cargo do FMI, e os critérios que os países deverão seguir seriam definidos em 2011. A falta de acordo entre os chefes de Estado, porém, joga essas medidas na coleção “boas intenções” logo esquecidas, ao lado de tantas outras anunciadas na sucessão de reuniões e cúpulas entre 2008 2d 2009, como a regulação do sistema financeiro.

Por outro lado, a ideia de que os EUA se submeteriam a uma autoridade externa, mesmo que seja o FMI, não deixa de ser ingênua. Para se ter uma ideia, o próprio EUA haviam se comprometido, em reunião realizada pelos ministros das finanças do G20 duas semanas antes do encontro de cúpula, a não alimentar a guerra entre as moedas. Poucos dias depois, anunciava o megapacote de 600 bilhões de dólares, desvalorizando ainda mais o dólar.



Impasses

Atrás das palavras vazias estava o impasse que marcou toda a reunião. O problema que monopolizou a reunião permanece: a guerra cambial como uma forma disfarçada de protecionismo. Na prática, o G-20 não só não tomou qualquer medida contra as manipulações do câmbio, como em parte legitimou o vale-tudo nas moedas.

A declaração final apenas “sugere” que os países se abstenham de mexer no câmbio, ao mesmo tempo em que permite “medidas macroprudenciais cuidadosas” aos países que se sentirem afetados. Ou seja, fica tudo como está. Coisa que não é nada desvantajosa aos EUA, que permanece tendo controle absoluto na emissão da moeda de reserva internacional e continua fazendo o que bem entende.

Novo momento da crise
A atual guerra cambial expressa um novo momento da crise econômica internacional. A crise explodiu no final de 2007, levando pânico aos governos e mercados. Para enfrentá-la, lançou-se mão de pacotes de ajuda aos bancos que consumiram trilhões de dólares. Se por um lado essa ajuda evitou um crash como o de 1929, por outro ele colocou vários países, incluindo as principais potências, à beira da bancarrota.

Nesse novo momento da crise, os países tentam debelar a crise através de ataques aos trabalhadores, como ocorre em praticamente toda a Europa, e de protecionismo comercial com o câmbio. Cada país tenta elevar suas exportações depreciando sua moeda e tornando os produtos mais baratos no mercado externo.

Foi justamente o protecionismo que transformou o crack de 1929 na longa recessão que se estendeu por toda a década de 1930. A crise econômica nos EUA e na Europa e o impasse expresso na última reunião do G-20 mostram que o fantasma de 29 continua bem vivo.

sábado, 11 de setembro de 2010

Mais da metade das famílias brasileiras estão endividadas Endividamento crescente é uma bomba relógio que pode explodir no acirramento da crise inter

Da redação doi site PSTU



• Por detrás do recente período de crescimento econômico no país, cresce um monstro, escondido no seio da maioria das famílias brasileiras. É o monstro do endividamento. Pesquisa do Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, realizada em agosto, mostra que a maior parte das famílias brasileiras, ou 54%, tem dívida, cujo valor médio supera R$5.400. Dessas, 37,8% disseram que simplesmente não têm como pagar as contas.

Esses dados fazem parte da pesquisa que traçou o Índice de Expectativa das Famílias (IEF), captado pelo instituto através de entrevistas realizadas com 3.810 famílias em 214 cidades. A pesquisa busca captar a expectativa das famílias em relação à economia e mostra que, embora grande parte das pessoas tenha percebido uma melhora na vida no último período e mostre certo otimismo em relação ao futuro, tal sentimento se ampara sobre um nível crescente de endividamento.




Fonte:IPEA

A pesquisa aponta que somente 22,8% das famílias esperam pagar totalmente suas dívidas. O resto espera pagar parte dela, ou avalia que simplesmente não terá condições de pagar. Ou seja, 74,5% das famílias não têm a expectativa de pagar todas as suas contas.

Das famílias endividadas, 23% têm uma dívida superior a 5 vezes o valor de sua renda mensal. Na região Norte a situação das famílias é ainda mais precária. Mais da metade, ou 53%, afirmam que não vão quitar suas dívidas. No Nordeste esse índice é também altíssimo, de 46,9%.

Bomba relógio

A pesquisa do Ipea e o alto grau do endividamento das famílias ajudam a entender não só o atual crescimento, baseado no consumo, como parte da enorme popularidade do governo Lula e da percepção de que a vida melhorou. A facilidade de se contrair crédito possibilitou o acesso de milhões a bens de consumo que antes eram bastante restritos. Com isso, as pessoas foram levadas a pensar que a vida de fato melhorou.

O emprego, os serviços públicos essenciais como Saúde e Educação, e os salários, porém, não melhoraram. Foi divulgado recentemente os dados da Pnad 2009 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Segundo a pesquisa anual do IBGE, a renda média do trabalhador era de R$ 1.106 no ano passado. Só para se ter uma ideia, em 1996 era de R$ 1.144 e em 1986, de R$ 1.238. Ou seja, visto sob uma perspectiva mais ampla, os salários estão diminuindo e o povo está ficando mais pobre, apesar do acesso ao consumo criar a ilusão de que ocorre o contrário.

O endividamento das famílias, desta forma, pode lentamente se tornar uma verdadeira bomba relógio, pronta a explodir diante do acirramento da crise econômica internacional. O próprio Ipea alerta que ”com as elevadíssimas taxas de juros ao consumidor praticadas no Brasil há muitos anos, não seria descabido temer pelo risco de inadimplência”. Com o aumento do desemprego, tal tendência seria incontrolável.

A última Pnad mostrou que em 2009 a crise no Brasil produziu 1,3 milhão de novos desempregados. Ou seja, apesar do discurso do governo e de grande parte da mídia, a economia do país continua vulnerável aos solavancos da crise. E os ventos que sopram da Europa dão apenas uma mostra do que está por vir.