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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ultraje racista contra Zumbi e a luta negra e popular


No domingo passado, 5 de junho, o Monumento Nacional a Zumbi dos Palmares, no Rio de Janeiro, foi vandalizado e pichado com inscrições racista. Apesar de ultrajante – exatamente por se tratar de um monumento que, em muitos sentidos, se confunde com a luta dos negros brasileiros – esta não foi a primeira vez que a escultura foi alvo de ataques. Isto tem ocorrido de forma sistemática, desde 1986, quando foi inaugurado

O ataque anterior ocorreu em novembro de 2010, às vésperas do Dia de Consciência Negra, quando a face da figura que representa o líder do Quilombo dos Palmares foi pichada. O novo ataque, contudo, foi muito mais “violento” e direto. Algo, lamentavelmente, bastante sintonizado com um momento em que assistimos agressões homofóbicas país afora, prisões políticas – com a dos “13 do Consulado” – e os absurdos praticados contra os bombeiros.

Os mesmos racistas de sempre
A estátua, que fica na Av. Presidente Vargas (no bairro da Praça Onze, no centro do Rio), amanheceu com o “rosto” pintado de branco e várias ofensas racistas, pichadas na pirâmide de mármore que dá sustentação à cabeça que simboliza o líder guerreiro.

Além de xingamentos como “invasores malditos” e “fora macacos”, também foi desenhada uma suástica, marca registrada dos agrupamentos de grupos fascistas e seus muitos similares e derivados que infestam o país e, com freqüência cada vez mais preocupante, têm posto suas garras pra fora.

Apesar de ter sido rapidamente limpa e das muitas promessas, por parte do governo carioca, de punir os responsáveis, a história tem tudo pra virar mais um exemplo da impunidade que cerca os crimes praticados contra negros, mulheres, homossexuais, sindicalistas, ambientalistas, lutadores e os muitos setores oprimidos e explorados deste país.

Um símbolo do fim da ditadura e da resistência negra
O ataque contra o monumento Zumbi dos Palmares não pode ser confundido com os atos de “vandalismo” que ocorrem frequentemente contra peças do patrimônio histórico, artístico e cultural espalhados pelo país.

Na maioria das vezes, as pichações e “mutilações” que afetam esculturas, prédios e estátuas que celebram personagens e eventos de nossa história têm origem num fato que, apesar de não servir como “justificativa”, nos possibilita uma interpretação: os objetos do patrimônio são atacados simplesmente porque a maioria da população não tem qualquer identidade (e, muitas vezes, sequer conhecimento) do porquê do personagem ou evento está sendo celebrado.

Este, no entanto, está longe de ser o caso da estátua de Zumbi. Sua própria construção só pode ser entendida como resultado da luta da grande maioria do povo brasileiro, não só dos negros, mas de todos aqueles que se levantaram contra a ditadura.

A história do monumento, que mostra uma cabeça, de 800 quilos de bronze, em cima de um pedestal de sete metros de mármore, nos remete ao início dos anos 1980, quando a ditadura estava sendo sacudida por greves, protestos de todos os tipos e, principalmente, pelo processo de reorganização dos movimentos políticos e sociais.

O movimento negro, por exemplo, fervilhava desde junho de 1978, quando um ato nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, lançou as bases do Movimento Negro Unificado, lançando como uma de suas principais bandeiras o resgate da história da luta dos negros no país, uma reivindicação que se concretizava no combate pela transformação do “20 de novembro” em Dia Nacional da Luta e da Consciência Negra.

No Rio de Janeiro, o movimento negro escolheu como uma das “frentes” desta batalha o reconhecimento histórico de Zumbi (e, também, do Almirante Negro João Cândido) através da construção de monumentos em sua homenagem. Reivindicação que, na época, se transformou, também, em campo de batalha contra a ditadura.

Com a chegada do populista Leonel Brizola ao governo do Rio, em 1982, houve a sinalização de que o monumento finalmente seria erguido. Mas, como tudo mais em nosso tumultuado processo de democratização, o projeto só saiu do papel em novembro de 1986, ainda sim marcado por polêmicas, principalmente em relação ao local de sua instalação, já que setores conservadores de todas as tonalidades e matizes sempre rechaçaram a homenagem aos nossos lutadores.

Vale lembrar que, no caso de João Cândido, a situação foi (e é) ainda mais absurda, já que a total oposição das Forças Armadas (com a benção, agora, do Lulismo) até hoje impede que o líder da Revolta da Chibata ocupe o lugar que merece na História do país e, inclusive, que um monumento em sua homenagem seja erguido no lugar que tem por direito.

Em ambos os casos, também é importante ressaltar que (como aconteceu em vários outros lugares do país) os monumentos existentes só surgiram depois de muita luta. No Rio de Janeiro, por exemplo, desde o final dos anos 1970 centenas de ativistas foram presos ao tentarem erguer monumentos construídos pelo próprio movimento em pontos relacionados com a nossa história.

Nas pedras pisadas do cais, das senzalas e dos quilombos
Se é verdade que o ataque ao monumento deve ser repudiado, também é um fato que não podemos nos calar diante de um “ataque” tão violento quanto este que é praticado há séculos pelas elites dominantes deste país: a tentativa sistemática de apagar os lutadores, principalmente dos setores mais marginalizados ou “radicais” da sociedade, da história do país.

Uma tentativa que se reflete nos livros didáticos, na programação e pautas da grande mídia e, também, no patrimônio histórico, artístico e cultural que é reconhecido pelo Estado. No caso particularmente dos monumentos, é evidente que eles refletem a ideologia dominante e, por isso mesmo, são raros os exemplos de marcos que celebrem aqueles que desafiaram a lógica do poder instituído.

E quando eles são erguidos, depois de muita luta, também não é raro que eles sejam largados ao abandono e descaso, como o próprio monumento para Zumbi atestava, já que até recentemente, quando passou por um restauro de emergência, estava prestes a cair, tamanha a deterioração.

Como também, os atentados não resumem a pichações e ofensas. Basta lembrar o monumento aos mortos na ocupação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Minas Gerais, que foi, literalmente, bombardeado, em 1988.

É por isso mesmo que, como lembra um dos versos mais belos da MPB (na música “O mestre sala dos mares, de Aldir Blanc e João Bosco), a história de nosso povo só tem por “monumento as pedras pisadas do cais”, as marcas de dor deixadas nos pelourinhos ou o sangue que misturou ao chão de terra batida das senzalas ou correu nas celas dos porões da repressão ou pelo asfalto em que pisaram e tombaram tantos de nossos companheiros e companheiras.

E diferentemente da classe dominante, que ergue seus monumentos para celebrar seus “heróis” (que, via de regra, não passaram de assassinos, opressores e exploradores), ao reivindicarmos que esses lutadores sejam celebrados “em praça pública”, o que queremos é exatamente restituí-los em seu lugar na História: colocá-los em meio ao povo, pelo qual eles deram sua vida.

Por estas e outras, é que o ataque racista contra o Monumento Zumbi dos Palmares tem que ser veementemente repudiado e tomado, pelos movimentos sociais e todos aqueles comprometidos com a luta por liberdade e justiça, como um ataque à memória de todos que deram suas vidas para mudar a História deste país. E, por isso mesmo, é fundamental que as entidades dos movimentos sociais se manifestem, exigindo a punição dos responsáveis.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

RACISMO E INTOLERÂNCIA CONTRA O DIGNO E LUTADOR PROFESSOR JUCA, CANDIDATO A REITOR DA UEMA


Professor Juca, NEGRO e LUTADOR em defesa da UEMA.


Publicado no Blog do Professor Paulo Rios

No dia 14 deste novembro, o Sr. Marco Aurélio D’eça [blogueiro do coronelismo eletrônico miranteano] lançou um post denominado “candidato a reitor da Uema desrespeita decisão do Consun e mostra desconhecimento da lei”. O candidato a que se refere o Sr. blogueiro trata-se do professor Joaquim Teixeira Lopes, o Juca; querido de seus alunos e respeitado pelos professores da universidade desde sua admissão na instituição no ano de 1981, bem como dos alunos do antigo CEFET, hoje, IFMA.

Não é o caso de jogar ossos e carne de segunda para os cães que ladram nas páginas do Sr. Blogueiro, açulando desta forma o racismo e a mais ampla desqualificação dessa montanha que pariu dezenas de ratazanas de acordo com os inúmeros “comentários” oriundos de mentes insanas e jogados na vala comum.

Meus caros, chamar o professor Juca, de Mussum? O que é isso, cara-pálida? Quem foi o coitado que se escondeu atrás do “nome” Luis Fredson e que não tem coragem de enfrentar o debate sobre os rumos da Universidade Estadual do Maranhão?

Camaradas, tanto o companheiro Juca – candidato a reitor - quanto a professora Célia Costa [candidata a vice-reitora], são docentes que, além de compromissados com o seu mister acadêmico quer seja na pesquisa, no ensino ou na extensão; também são valorosos militantes da luta pela autonomia da universidade pública, democrática e de qualidade e pela melhoria das condições de trabalho e de remuneração, incluindo a luta histórica pela aprovação do Plano de Cargos e Salários dos servidores administrativos.

Ambos foram e continuam sendo protagonistas de inúmeras conquistas do corpo docente, a exemplo das paralisações e greves nos governos de Roseana Sarney, Zé Reinaldo e Jackson Lago. Estas lutas permanentes, durante a primeira década do terceiro milênio, revelaram a liderança e o respeito da ampla maioria dos professores, alunos e servidores técnico-administrativos da UEMA.


Quanto ao douto Sr. blogueiro que afirmou que o professor Juca havia “desrespeitado” (sic!) o casuísmo perpetrado pela maioria do Conselho Universitário e em retribuição ao atual reitor, tornou-o candidato a tri-reeleição, ou melhor, o candidato a chefe de uma ditadura civil no âmbito da universidade e, talvez, ainda, mais um caudilho a dirigir a UEMA, como nos velhos/novos tempos de autoritarismo e atraso na condução dos destinos de nossa instituição de ensino superior.

Acaso o Sr. blogueiro e seus “comentaristas” não saibam, o art. 34 do Estatuto da UEMA requer o quorum qualificado de dois terços de seus integrantes, referendado pela comunidade universitária (docentes, servidores técnico-administrativos e discentes), devendo, ainda, ser aprovado através de Decreto pelo governador(a) do estado.

Se o Sr. blogueiro sente saudades do autoritarismo e de seus casuísmos, a exemplo do famoso “Pacote de abril”, do general-presidente Ernesto Geisel e da criação do senador biônico. A propósito, será que o Sr. blogueiro e seus “comentaristas” querem criar o reitor biônico?

Para concluir, devo refutar a acusação do Sr. blogueiro de que o professor Juca faz a “política rasteira”. Nós sabemos muito bem quem é que faz e fez a política rasteira, corrupta, patrimonialista, sem nenhuma transparência, aparelhamento do gabinete para fins eleitoreiros e negação da democracia interna na universidade. São exatamente as mesmas figuras que, sintonizadas com a oligarquia Sarney/Roseana, criaram uma oligarquia interna dentro da UEMA e mandam e desmandam, a exemplo de César Pires, Waldir Maranhão, José Augusto e os demais satélites que pululam em torno desse grupo.

Essa tentativa do Sr. blogueiro miranteano de legitimar essa ilegal e antidemocrática manobra e o casuísmo adstrito a essa imoralidade deve ser enfrentado, de modo que os setores combativos e democráticos têm o desafio de impedir a perpetuação no poder de pessoas ou grupos, o que tem levado à privatização aberta da universidade, situação incompatível com os valores democráticos e com os anseios da comunidade universitária da Universidade Estadual do Maranhão.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Cem anos da Revolta da Chibata: Uma luta de raça e classe

Júlio Condaque e Maristela Farias,
da Secretaria Nacional de Negros do PSTU

João Cândido foi a referência da Revolta da Chibata, levante popular dos marinheiros negros ocorrido em 22 de novembro de 1910, no Rio de Janeiro. Isso porque ele havia tido a oportunidade de participar de cursos em outros países e de presenciar a organização operária e dos marinheiros que fizeram a primeira greve naval na revolução russa (1908).




Essas experiências internacionais lhe deram destaque na liderança da revolta popular. Segundo o historiador Nascimento, outras lideranças estiveram envolvidas, como Ricardo Freitas, Francisco Dias Martins (“O Mão Negra”), que escrevia as cartas ameaçadoras, cabo Gregório, entre outros. Apesar de o objetivo principal da revolta ser o fim dos castigos corporais, os marinheiros também lutavam por melhores condições de trabalho, contra os baixos salários na Marinha e o tratamento discriminatório das elites dos oficiais.

Naquela época, a partir da luta direta da armada militar, que acabou paralisando o Rio – então capital do país – por uma semana, a burguesia foi obrigada a se curvar às reivindicações dos marinheiros. Os castigos corporais “seriam” o último elo ainda existente com a época imperial e o regime da escravidão, apesar de já haver se passado 22 anos da abolição da escravatura.

Mas os marinheiros que fizeram história foram apagados do passado do Brasil, por serem negros. É importante lembrar que esses trabalhadores negros e pobres incluíam em suas reivindicações outras várias da classe trabalhadora em geral, num cenário em que as elites criminalizavam as lutas proletárias, que estavam começando na formação dos sindicatos de base operária.

Essa luta teve uma vitória parcial, mas foi comemorada pelos marinheiros com um “viva a liberdade”. Porém, durou pouco, pois o poder vigente das elites conservadoras se reagrupou para atacar os líderes da revolta um mês depois.

As elites militares não tinham como ordenar a prisão imediata dos marinheiros anistiados. Mas, se aproveitando de um episódio acontecido no Rio Grande do Sul, um novo levante de marujos que não foi bem sucedido, lançaram seu ataque aos líderes da Revolta da Chibata. Em novembro, os marinheiros anistiados foram então arrolados, por meio de provas como bilhetes e denúncias feitas por superiores diretos da Marinha de Guerra.

O governo Hermes da Fonseca conseguiu instalar o estado de sítio, ordenando a prisão dos 18 marinheiros da revolta, entre eles João Cândido. Foram então encaminhados para o presídio na Ilha das Cobras, onde sofreram torturas e muitos morreram. O horror da prisão levou João Cândido a ser internado no Hospício Nacional de Alienados para exames de sanidade mental, ficando 22 dias nesta instituição.

Havia todo um cenário de aumento da carga de trabalho e de pouca valorização das classes subalternas. O governo brasileiro usou naquela época o processo de vinda de imigrantes europeus para a política de branqueamento da população, com os incentivos de terra e moradia aos europeus. Essa política foi utilizada como forma de fragmentar e colocar diferenças entre a classe trabalhadora para melhor explorar e oprimir.

A lei de anistia de João Cândido veio aumentar a contradição do Estado brasileiro, que usa o mito da democracia racial (todos são iguais perante a lei) para tentar apagar o passado de crimes. Ainda nos dias de hoje, é possível ver a história se repetir, pelas mãos de Lula. Recentemente, o governo – com o apoio de algumas organizações negras – comemorou a aprovação de um estatuto da “igualdade racial” esvaziado de suas propostas fundamentais, sem as cotas para negros nas universidades, nos partidos e no serviço público, excluindo a garantia do direito à titulação das terras quilombolas e indígenas, sem a defesa e o direito à liberdade de prática das religiões de matrizes africanas.

O estatuto também não se posiciona sobre a proteção da juventude negra, que sofre verdadeiro genocídio por parte das polícias militares dos estados, em especial no Rio de Janeiro, onde existe uma política de faxina étnica (preparando a cidade para a Copa do Mundo e a Olimpíada). Além disso, não caracteriza o escravismo e o racismo como crimes de lesa-humanidade, conforme acordo internacional do qual o Estado brasileiro é signatário.

Por si só, o estatuto já é um retrocesso a todos os avanços que tentamos conquistar ao longo dos anos. Sob a justificativa da constituição de um marco legal que representaria o reconhecimento da desigualdade racial no Brasil, na realidade foi aprovado um documento de sugestões ao Estado.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Foto diferente da publicada no Jornal




Publicado no Joenal Peuqeuno e no Blo do Joenalista Manoel Santos

A professora Claudicéa Alves Durans, candidata a senadora pelo PSTU, explica que a sua candidatura tem o propósito de servir de instrumento para fortalecer as lutas concretas dos trabalhadores e da juventude. Maranhense de São Luís, que fez a graduação no curso de Pedagogia e Mestrado em Educação pela UFMA, Claudicéa prega a elaboração de “um programa socialista de enfrentamento ao governo Lula (PT), a Roseana Sarney (PMDB) e à oposição de direita (PSDB, DEM e PV) e à pseudo-oposição de esquerda (PT e PCdoB).”

Professora do Ensino Superior do IFMA (antigo Cefet), Claudicéa Durans iniciou sua trajetória de militância política no movimento popular e pastoral de juventude no bairro da Liberdade. Na UFMA, ainda como estudante participou do Movimento de Universitários Negros.

Hoje é militante sindical de base filiada ao Sindsep e Sinasefe. Integra ainda o Movimento Negro Quilombo Raça e Classe da Conlutas. É militante do PSTU desde a sua fundação em 1994. Abrigada neste partido disputou as eleições de vereador em São Luís no ano de 2008.

Agora, candidata ao Senado, Claudicéa sabe que vai enfrentar uma disputa desigual: “Os candidatos burgueses contam com amplos recursos e a conivência da imprensa e da Justiça. Essa máquina eleitoral riquíssima que está a seu favor vai desde a compra de votos até a utilização de cabos eleitorais pagos”, afirma a candidata a senadora do PSTU. Nesta entrevista ao Jornal Pequeno, Claudicéa Durans fala sobre suas idéias e propostas:

Jornal Pequeno – Qual a sua expectativa, do ponto de vista político e eleitoral, em relação às próximas eleições de outubro no Maranhão?

Claudicea Durans – Inicialmente gostaria de esclarecer que todas as candidaturas do PSTU no Brasil e no Maranhão estão inteiramente a serviço das lutas dos trabalhadores. Ao contrário dos outros partidos não somos políticos profissionais que só aparecem no período eleitoral para ludibriar a população com promessas que não irão ser cumpridas, pois estão presos por acordos com grandes empresas e bancos que financiam suas campanhas e depois de eleitos estabelecem contratos de serviços e obras públicas com tais empresas, por isso a elas estão presos política e financeiramente.

Nós do PSTU somos trabalhadores: professores, operários, bancários, servidores públicos, estudantes, ativistas conhecidos das lutas sindicais, estudantis e dos movimentos sociais e populares. Nossas candidaturas são para fortalecer as lutas concretas dos trabalhadores e da juventude, através de um programa socialista de enfrentamento ao governo Lula (PT), a Roseana Sarney (PMDB) e a oposição de direita (PSDB, DEM e PV) e a pseudo-oposição de esquerda (PT e PCdoB).

No campo eleitoral sabemos que vamos enfrentar uma disputa desigual, pois candidatos burgueses contam com amplos recursos e a conivência da imprensa e da justiça. Essa máquina eleitoral riquíssima que está a seu favor vai desde a compra de votos, cabos eleitorais pagos, que diga-se passagem é um absurdo vermos idosos, crianças e os jovens cabisbaixos, balançando bandeiras ou entregando panfletos em retornos de avenidas e praças públicas de São Luís, tentando sobreviver de migalhas, sofrendo humilhações para propagandear políticos de direita que nunca fazem nada em benefício da população. Nossa candidatura será realizada com contribuições dos trabalhadores e com isso temos orgulho de dizer que somos independentes dos patrões e dos governos.

JP – O que representa, no atual cenário político do Estado, a sua candidatura ao Senado da República?

Claudicea Durans – Pretendemos primeiramente fazer um diálogo com os trabalhadores sobre o que representa o Senado, instituição esta que surge na época do Império (1824), foi inspirada na Câmara de Lordes da Grã-Bretanha, cujos senadores não eram eleitos e possuíam cargos vitalícios. No período republicano o Senado inspirou-se no modelo federalista dos EUA, no qual os senadores representavam os estados e os deputados o povo. Este modelo se configurou no Brasil, os estados têm direito a três senadores e não se leva em conta a quantidade de habitantes de um estado para eleger os representantes.

Cada senador tem um mandato de oito anos, o que equivale o dobro dos deputados. Além disso, essa segunda câmara legislativa controla um orçamento de R$ 3,5 bilhões ao ano. O Senado historicamente no Brasil tem fortalecido as oligarquias, através de esquema político de negociação com o governo federal que tem financiado algumas poucas obras públicas para obter apoio desses senadores nos estados e dessa forma enganam a população, que fica permanentemente grata e comprometida em votar nesses senadores. O Maranhão é um exemplo típico desse acordão.

Com a política do governo Lula esse esquema foi ampliado, pois figuras como Collor de Melo, Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros ganharam sobrevida nesse governo. Vale lembrar que há um ano atrás o Senado foi palco de denúncias de corrupção, nepotismo por meio de atos secretos, desvios de verbas, contratos fraudulentos, a exemplo da Fundação Sarney com Petrobras.

Esta crise teve como principal protagonista Sarney, presidente do Senado, porém as denúncias foram arquivadas, o que mostra por um lado, o verdadeiro caráter de corrupção desta instituição e por outro lado, o papel que teve o governo do PT com apoio do PCdoB nessa política, aliás, todos nós lembramos quando Lula utilizou a mídia em defesa do Sarney, tudo para conseguir o apoio da base aliada (PMDB) à candidatura de Dilma à Presidência da República.

O PT de Lula não levou em conta a opinião da população, cerca de 74% queria o afastamento de Sarney. Também temos percebido que as poucas leis que são propostas em benefício dos trabalhadores têm passado por dois crivos: o primeiro a Câmara de Deputados, o segundo o Senado, daí porque tanto tempo os projetos de lei ficam em tramitação e quando são aprovados no Legislativo saem totalmente desfigurados do projeto original. Então para que duas câmaras com a mesma finalidade? As nossas candidaturas ao Senado pretendem dialogar com os trabalhadores sobre tudo isso e defendemos o fim do Senado por uma única câmara legislativa, além de colocar as nossas candidaturas a serviço da classe trabalhadora.

JP – Quem são os candidatos a suplente de senador em sua chapa? Fale sobre eles:

Claudicea Durans – Janilde Sousa Santos é professora da rede municipal e estadual de ensino e Valdelino Ferreira da Silva, operário da construção civil. Ambos representam setores importantes da classe trabalhadora.

JP – Qual sua análise da atual representação do Maranhão no Senado? Cafeteira? Mauro Fecury? Sarney?

Claudicea Durans – O Senado, como já havia afirmado antes, é uma instituição que serve aos interesses das oligarquias e da elite brasileira. No Maranhão estes senhores representam esses interesses. A população maranhense acaba até esquecendo que tem representação nessa instituição, pois não fazem absolutamente nada, só sabemos que eles estão lá quando vemos noticiadas em toda a imprensa denúncias de corrupção como a de Sarney no Senado, que para nós essa prática já é bastante conhecida durante as décadas que esteve à frente do Estado e da Presidência da República. É bom esclarecer que Sarney não é senador pelo Maranhão e sim pelo Amapá, através das manobras que utilizou para se eleger naquele Estado.

JP – Qual sua opinião sobre a questão das minorias, da inclusão social, do racismo e da questão do negro no Brasil e no Maranhão?

Claudicea Durans – A história da população afrodescendente no país e no Maranhão é marcada pela desigualdade socioeconômica, sustentada pelo preconceito, pela discriminação e pelo racismo. No debate racial deve-se ter como pano de fundo as experiências que tivemos no Brasil e que sedimentaram as relações sócio-raciais. Desta forma deve-se levar em conta o período prolongado de escravidão que durou quase 400 anos em contraste com apenas 122 anos de trabalho livre.
Não podemos esquecer que nós negros construímos esse país e fomos tratados apenas como coisa, objeto por quase quatro séculos, portanto o Estado brasileiro deve a nós uma dívida histórica por não garantir qualidade de vida digna.

Somado a isso fomos vitimas de valores discriminatórios e racistas que até hoje estão presentes no inconsciente brasileiro. É bom lembrar que no trajeto da sociedade a ciência, os intelectuais introjetaram e produziram mitos como da inferioridade do negro, da ideologia da mestiçagem e da democracia, utilizados para nos colocar como cidadãos de segunda classe, inferiores e invisíveis a ponto de não nos identificarmos enquanto grupo étnico e de classe e termos assim, uma identidade desfigurada pela estrutura social.

Esses elementos são fundamentais para entendermos o porquê de nossas reivindicações históricas, a exemplo das lutas do movimento negro por condições materiais que passa pela construção da identidade negra. Sabermos quem somos, para onde vamos, que papel temos na sociedade, são questões fundamentais nessa luta e enquanto tivermos crianças negras em condição de rua, adolescentes e jovens sendo dizimados pela violência, repressão policial, mulheres sendo violentadas, vitimas de violência e do machismo a nossa luta será necessária.

Nesta árdua luta não podemos deixar de registrar Magno Cruz, que precocemente encerrou a sua jornada aqui na terra, mas estará sempre presente em nossa memória, enquanto um referencial no combate à questão social e racial do Maranhão e do Brasil.

JP – Que propostas defende como candidata ao Senado?

Claudicea Durans – Apesar das conquistas do movimento negro a exemplo da Lei 10.639 que institui o ensino da África e dos afrodescendentes no currículo e as cotas para negros nas universidades, não podemos esquecer que estas conquistas estão sendo ameaçadas, sobretudo com a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, que não passou de um acordo entre o DEM de Demóstenes Torres, a Secretaria da Promoção da Igualdade Racial e o PT.

Este estatuto suprimiu pontos importantes como cotas para negros nas universidades públicas, participação dos negros em partidos políticos que na versão original era de 30% e foi reduzido para 10%; supressão do texto que tratava da regularização de terras para remanescente de quilombo e ainda estabeleceu-se o compromisso do governo em oferecer incentivos ficais às empresas privadas com mais de 20 funcionários que contratem pelo menos 20% de negros em seu quadro de funcionários.

Foram também retirados conceitos clássicos de nossa luta histórica como raça, escravidão e identidade negra sob o pretexto de já ter superado o racismo e que estamos avançando no sentido da democracia na sociedade brasileira. Nós do PSTU acreditamos que uma verdadeira política racial no país deve garantir o direito da titulação de terras aos quilombolas, as cotas nas universidades públicas, o combate ao racismo, pela garantia das condições de vida igual para todos. Discordamos da política adotada pelo governo Lula e de Roseana de segurança, que apenas militariza a política de segurança com a criação da Força Nacional e tem o papel de exterminar a juventude negra das periferias.

Não podemos esquecer um dos piores crimes de racismo no Brasil vivido por Gerô há dois anos atrás. Hoje os policiais condenados já estão soltos e alguns foram promovidos no governo Roseana, o que é um absurdo! Exigimos do governo Lula a imediata retirada das tropas brasileiras do Haiti, que cumprem o papel de reprimir nossos irmãos da América. Acreditamos também que o fato de apenas criar secretarias de promoção da igualdade racial que, diga-se de passagem, sem recursos próprios não resolverá o problema.

JP – Qual a posição do seu partido em relação à sucessão presidencial?

Claudicea Durans – Acreditamos que as eleições não irão resolver os problemas da classe trabalhadora e participamos dela para apresentar nosso programa socialista para os trabalhadores. A não participação dos trabalhadores nesse processo deixaria os dois blocos burgueses majoritários sem nenhuma contestação. Utilizamos este processo para fortalecer as lutas dos trabalhadores. Neste sentido, nosso candidato a presidente da República, Zé Maria de Almeida, um operário metalúrgico, vem expressar nossa estratégia socialista e a defesa dos trabalhadores.

As experiências com o PT de Lula e o PSDB de Serra já demonstraram para quem estes partidos governam. Para se ter uma idéia, nos oito anos de mandato de Lula as grandes empresas quadruplicaram seus lucros e só em 2009 foram entregues aos banqueiros 380 bilhões. Este valor representa 35% de todo o orçamento nacional, enquanto para a educação no mesmo ano destinou-se 2,88% e para saúde apenas 4,64% do orçamento.

O PSDB por onde tem passado tem valorizado a política de privatizações e congelamento de salários. Marina Silva (PV), por sua vez, não representa nada de novidade. Esteve presente no governo Lula como ministra do Meio Ambiente e em sua gestão houve um considerável aumento do agronegócio, defendeu recentemente o Banco Central no aumento das taxas de juros e tem nada mais que o dono da Natura – Guilherme Leal (13º mais rico do país) – como seu vice. Ele está sendo processado por biopirataria no Acre pelo Ministério Público.

Os trabalhadores precisam ter uma vida digna com educação, saúde e moradias de qualidade. Para isto somos radicalmente contrários ao domínio das grandes empresas e defendemos o não pagamento da dívida interna e externa.

JP – O seu partido, nestas eleições, tem a particularidade de ter uma candidata a vice-presidente da República negra e do Maranhão. Fale sobre isto:

Claudicea Durans – A professora Cláudia Durans é conhecida no Maranhão e no Brasil por sua atuação no movimento sindical à frente do ANDES – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior pela defesa da universidade pública e valorização do trabalho docente. A sua candidatura expressa a luta do povo nordestino, mulheres e negros contra a opressão.

JP – Como avalias as demais candidaturas ao Senado: Lobão, João Alberto, Vidigal, Zé Reinaldo, Roberto Rocha, Noleto, Professor Adonilson etc?


Claudicea Durans – Nós do PSTU apresentamos além da minha candidatura, a do companheiro Noleto como alternativas para o Senado. Acreditamos que candidatos como Lobão, João Alberto, Vidigal, Zé Reinaldo e Roberto Rocha representam apenas a continuação do atual modelo de exploração e dilapidação do patrimônio do estado do Maranhão para servir aos interesses do latifúndio e das grande empresas às custas da humilhação da grande maioria da população maranhense.

Sobre o companheiro Noleto, é um dos fundadores do nosso partido, militante sindical, demitido da Alumar por sua atuação em defesa dos interesses dos trabalhadores, além de ser um defensor contundente da necessidade da revolução socialista.

JP – Qual sua visão sobre a candidatura da governadora Roseana Sarney à reeleição?

Claudicea Durans – As experiências com os governos de Roseana foram um verdadeiro caos do ponto de vista dos trabalhadores. Viu-se a adoção de políticas privatizantes de importantes empresas como a Cemar, Banco do Estado (BEM), Copema e Emater. O seu governo foi mergulhado em situações de escândalos como o caso da Lunus e da empresa de confecções em Rosário. O Maranhão tem os piores indicadores sociais.
Na área de educação assistiu-se a implantação do tele-ensino, modelo de educação com formação aligeirada para alunos da rede pública em péssimas qualidades, buscava apenas mercantilizar a educação com a TV Globo. O seu governo de fato trouxe lucro para empresas, bancos e enriquecimento da sua família. Aos trabalhadores dedicou-se a ataques principalmente aos professores. Muitos trabalhadores foram demitidos com o aniquilamento e a extinção de empresas importantes que moviam a economia do estado.
A família Sarney é bastante desgastada no Maranhão. Todos nós conhecemos as mazelas deixadas por esta oligarquia que trata o estado como feudo seu, mas se mantém por um lado, através de propagandas midiáticas (é dona de TV, rádio e jornais) e por outro lado pelo PT, que tem como seu vice o ex-diretor do SINDSEP-MA Washington Luiz. Incondicionalmente o PT tenta manter o prestígio desse grupo com a classe trabalhadora, mas está tão desgastado quanto. Tudo isso é um absurdo! Absurdo também é o jingle de campanha de Roseana que, em um trecho diz: “Deus lhe deu outra chance”, como se não houvesse o dedo de seu querido pai na cassação de Jackson para o retorno do controle do Estado.

JP – E as candidaturas ao governo de Jackson Lago, Flávio Dino, Saulo Arcangeli etc?

Claudicea Durans – Há uma distorção muito grande no processo eleitoral. As eleições representam projetos políticos e não apenas competência para administrar a máquina do estado. Não se trata de meritocracia, onde alguns “dotados” aprenderam nas academias habilidades e competências para assumir cargos. É claro que a formação é importante neste tipo de processo, mas que tipo de formação? Para que e para quem esta formação está destinada?

Há políticos de direita que aprendem a falar em público sem ter tido nenhum contato com os trabalhadores, aprendem através de cursos de oratória destinado a esse público alvo. Para nós do PSTU nessas eleições é importante, para de fato mudar a situação da classe trabalhadora, um programa de governo que seja o conhecimento da realidade do Estado, mas também aponte saída para que a maioria – trabalhadores, estudantes e desempregados tenham vida digna, não é se atrelando à direita ou à situação como faz o PCdoB de Flávio Dino e o PDT de Jackson Lago para obter vantagens eleitorais.

Já tivemos experiência com a frente ampla que se constituiu no Estado para derrotar a família Sarney, porém essa frente foi apenas eleitoreira, e hoje o PT que fazia parte desse grupo foi de pires na mão compor alianças com Roseana Sarney. Quanto ao Saulo Arcangeli é um companheiro valoroso dedicado às lutas sociais, integra a Conlutas (nossa Central Sindical) nacionalmente.

JP – Que avaliação fazes das recentes pesquisas sobre os candidatos ao Senado e ao governo do Maranhão?

Claudicea Durans – As pesquisas realizadas no início da campanha eleitoral ainda não expressam o quadro real da sucessão no estado. O grande número de eleitores indecisos demonstra que as eleições estão indefinidas e uma parcela importante dos maranhenses já não suporta ver os nomes dos políticos mentirosos de sempre pedindo novamente o voto.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A IDEOLOGIA RACISTA ENTRA EM CAMPO



Rosenverck E. Santos

Prof. de História - São Luís/MA

* Algumas reflexões sobre o racismo na Copa do Mundo

A copa do mundo de futebol é a celebração entre os povos e continentes. Esse é o discurso oficial. É como a democracia racial no Brasil: - uma celebração entre as raças. Tal discurso afirma: democraticamente as raças no Brasil estariam harmonicamente relacionadas! Na copa do mundo aconteceria o mesmo, os povos estariam harmonicamente relacionados, teriam as mesmas oportunidades futebolísticas de ganhar ou perder e nada que não fosse estritamente esportivo influenciaria nos resultados.

O discurso jurídico racista construído no Brasil não foge a esta regra. Todas as oportunidades igualitárias são dadas a qualquer um, não importando condições de classe, gênero e raça. Dessa forma, todas as determinações que não fossem estritamente ligadas à capacidade intelectual e moral dos indivíduos estariam isentas de responsabilização pelas desigualdades e fracassos sociais.

A realidade concreta, no entanto, é diferente do discurso. Assim como na democracia racial brasileira onde a população negra não está socialmente igual ao segmento branco, pois os anos de escravidão e ideologia racista influenciam determinantemente nos espaços socioeconômicos ocupados por brancos e negros; na copa do mundo os resultados aparentemente esportivos não poderiam estar isentos de séculos de ideologia racista e dominação colonial impostas aos povos africanos. Senão vejamos!

Todos os times africanos que estão participando da Copa do Mundo de futebol carregam consigo – segundo quase toda a imprensa – a pecha de violentos e ingênuos. Percebam que essas afirmações em nada fogem à regra de como o continente e a história africana é percebida pela maior parte do senso comum popular e mesmo por intelectuais racistas. A África e os africanos, segundo esse discurso, não teria e não tem condições de controlar e administrar as suas riquezas e os seus territórios, cabendo aos europeus ou empresas multinacionais o comando e controle do espaço africano. A ingenuidade africana necessitaria – por esse discurso – da capacidade intelectual européia para realizar o progresso e a civilização. As violências tribais africanas seriam o exemplo dessa incapacidade de autonomia. Como se percebe, não por acaso os africanos no futebol são vistos como ingênuos e violentos.

Mas não é segredo pra ninguém que a maioria dos jogadores africanos moram desde crianças no continente europeu, foram educados nas línguas e culturas européias e jogam em grandes times do futebol da Europa. São jogadores milionários que tem acesso a todos os artefatos da cultura e educação européia, bem como de todos os recursos técnicos e táticos dos mais avançados no mundo. Mas, se a maioria foi educada no ideário europeu, jogam em grandes times do futebol e tem todos os recursos técnicos e táticos do futebol, por que são vistos e apontados como violentos e ingênuos. A explicação que parece complexa, na verdade é muito simples: a ideologia racista entra em campo.

Comecemos por definir: o que é racismo? De forma objetiva é a vinculação das capacidades intelectuais e morais à sua condição racial ou cultural. É atribuir inferioridade, anomalias e degenerações à condição de indivíduo pertencente a um grupo social e etinicorracial específico. Não é por acaso, portanto, que apesar dos jogadores africanos viverem e trabalharem na Europa serem taxados de violentos e ingênuos.

O que a maioria da imprensa faz é atribuir uma condição intelectual e moral ao fato de serem africanos. Em essência, o problema não está em fazer faltas e perder o jogo, pois qualquer time é sujeito a isto. A questão está no fato de serem africanos e, portanto, incapazes de terem outra condição intelectual que não seja a ingenuidade e outro comportamento moral que não seja a violência.

Repete-se a máxima de Marx: é a história se repetindo como farsa e tragédia. Como farsa na medida em que retoma o discurso falacioso da inferioridade e ingenuidade africana e trágica no sentido de perpetuar o racismo consciente e inconsciente na memória coletiva do brasileiro.

Mas uma vez é necessário retomar o sentido real da história e por no devido lugar a condição africana. Assim como negamos a democracia racial, o racismo e a escravidão, buscando a nossa construção enquanto seres humanos ativos e transformadores; negamos também a ideologia racista futebolisticamente sofisticada que infantiliza e animaliza os africanos, reafirmando a máxima de Solano Trindade, pois nos navios negreiros que se deslocaram para o Brasil e para o mundo não tinham boçais e animais, mas pelo contrário: resistência e inteligência.