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segunda-feira, 13 de junho de 2011

O que é machismo?

ANA PAGAMUNICI, DA SECRETARIA NACIONAL DE MULHERES DO PSTU





Segundo o dicionário Michaelis, machismo é “um comportamento de quem não admite a igualdade de direitos para o homem e a mulher”. No campo político, definir o machismo exige mais complexidade. Para nós, o machismo é uma ideologia criada pela sociedade de classes para manter a propriedade privada, servir à dominação e também à exploração.

Uma forma de opressão

Chamamos de opressão toda conduta ou ação para transformar as diferenças em desigualdades, de forma que estas sejam utilizadas para beneficiar um determinado grupo em relação a outro. Quando isso se dá entre brancos e negros, chamamos de racismo. Entre homens e mulheres, denominamos machismo.

A opressão se expressa de várias formas. Na piada que ridiculariza as mulheres por sua condição de mulher: “dirige mal, só podia mesmo ser mulher”. Na diferença salarial entre homens e mulheres: hoje, em nosso país, uma mulher ganha até 30% menos que um homem. Na agressão física, verbal ou psicológica. No Brasil, a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas.

Uma ideologia

Mas o machismo não é só fruto de uma conduta individual. É uma ideologia, ou seja, um sistema de ideias falsas que criam uma falsa verdade utilizada pelo sistema para manter a dominação e ampliar a exploração. A principal ideia é a de que as mulheres são inferiores aos homens e, portanto, não podem assumir determinadas tarefas ou ter determinados comportamentos.

É através dessa ideologia que se naturaliza o fato de que as mulheres são as “rainhas do lar”, têm por obrigação cuidar dos filhos, da casa e dos maridos sem nada receberem por isso. Essa ideologia é transmitida pela escola, pelas famílias, pelas igrejas, pelos meios de comunicação e por todas as instituições que reproduzem o sistema capitalista. De tanto ser reafirmada passa a ser natural, comum, imutável.




No caso de Eliza Samúdio, que se relacionou com o jogador Bruno (que está preso sob a acusação de tê-la matado), a delegada que a atendeu em uma de suas primeiras denúncias de ameaça de morte não enquadrou o caso na Lei Maria Penha, alegando que a lei tinha sido feita para “defender a família”. Como ela não se encaixava nos padrões (era uma “maria chuteira”), tratava-se de violência comum. Esse é um bom exemplo de como a ideologia é utilizada e reproduzida.

Uma criação da sociedade de classes

A opressão (o machismo) não existiu sempre. Foi criada para justificar a divisão da sociedade em classes. Nas sociedades comunistas primitivas, as mulheres, junto com os homens, cuidavam das atividades domésticas e participavam da produção social.

Com o aparecimento da sociedade de classes, a instauração da propriedade privada e a necessidade de acumulação e herança, era preciso dividir as famílias e instituir a monogamia para preservar a propriedade privada. Com isso, as mulheres foram retiradas dos espaços públicos, da produção e da sobrevivência, e jogadas no espaço doméstico. Assim, foram proibidas de trabalhar, estudar e participar de atividades políticas.

O machismo sustenta o capitalismo

A luta das mulheres por igualdade de direitos obrigou o capitalismo a trazer as mulheres para a produção social novamente. A possibilidade de as mulheres se libertarem do espaço doméstico foi uma grande conquista. Mas, como toda conquista no capitalismo, foi por ele apropriada de maneira a favorecer a exploração e seus lucros. E as ideologias que antes eram utilizadas para manter a “mulher no lar” passaram a ser utilizadas para justificar jornadas excessivas de trabalho e salários mais baixos.





Ao mesmo tempo, o capitalismo se apropriou do papel que a mulher cumpria antes, fazer as tarefas domésticas, e o naturalizou. Assim, a mulher manteve a obrigação de cuidar dos afazeres domésticos e também passou a trabalhar fora. Isso faz com que elas tenham dupla ou tripla jornada. E quem se beneficia disso é o capitalismo.
Essa mecânica é muito positiva para os patrões, pois, enquanto as mulheres cuidam dos filhos e têm essa responsabilidade, o Estado e os patrões se desobrigam e economizam. Não precisam construir restaurantes, creches e lavanderias públicos.

Transferem para os trabalhadores - neste caso, mais especificamente, para as trabalhadoras - a responsabilidade que seria do Estado. Trabalham de graça não para o marido, mas para o sistema.

Quando o homem trabalhador trata sua mulher, também trabalhadora, como uma empregada, que tem a obrigação de cuidar das tarefas da casa sozinha, está reproduzindo essa ideologia do patrão, a serviço de manter o lucro dele. Se faz isso de maneira grosseira, usando a violência física ou psicológica, é pior ainda. Reproduz, com o uso da força, o poder da ideologia, deixando claro que as mulheres têm de obedecer e se resignar frente às agressões. Portanto, essa mentira do capitalismo é um falso privilégio para os homens, pois os grandes privilegiados são os patrões.

É certo que os homens podem imediatamente se beneficiar dessa condição. Porém, se são socialistas e querem derrubar o sistema, precisam também enfrentar a mão do capital dentro do lar, porque o que se reproduz não é uma relação entre duas pessoas, mas sim os interesses do capitalismo.

Combater o machismo é necessário

Para que a luta contra os patrões e governos seja vitoriosa, ela não pode ser feita com apenas metade dos trabalhadores. Hoje as mulheres já são metade da classe trabalhadora, e no Brasil são a maioria. Não conseguiremos nunca unificar todos os trabalhadores se desqualificamos as mulheres, se não observamos que há demandas específicas, se não incorporamos suas reivindicações e não as ganhamos para a luta.

A ideia de que essa discussão “divide a classe” ou que tem de ser feita “depois da revolução” é falsa e serve apenas para manter o capitalismo. O que divide a classe é o machismo, porque ele desqualifica as mulheres, coloca os homens contra as mulheres e as mulheres contra as próprias mulheres.

Superação do machismo é a superação da sociedade de classes

Marx, Lênin e Trotsky colocaram a luta pelas reivindicações das mulheres como uma das principais tarefas dos trabalhadores, desde o Manifesto Comunista. Isso continua atual.

É necessário dar um combate permanente ao machismo, dentro dos partidos políticos, das entidades de luta do movimento e em nossa vida cotidiana para que possamos ser vitoriosos.

Mas é também preciso não ter a ilusão de que podemos acabar com ele no capitalismo. Nessa luta temos duas tarefas: combatê-lo, corrigi-lo e buscar evitá-lo com todas as nossas forças. A outra é nos organizarmos, homens e mulheres, para derrotar a sociedade de classes e, com ela, o machismo.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Força feminina impulsionou revolução na Tunísia



Autoria: Eleanor Beardsley (av)
Revisão: Carlos Albuquerque


Enquanto a revolução ferve no Egito,
a Tunísia se reorganiza após queda do
ditador Ben Ali. Mas a mudança não foi só mérito
masculino: com um histórico de igualdade,
as tunisianas são uma exceção no mundo árabe.



As mulheres da Tunísia representaram um papel central na revolução popular que levou à derrubada do ditador Zine el Abidine Ben Ali. Ao contrário da população feminina de grande parte do mundo árabe, as tunisianas praticamente gozam de igualdade em relação aos homens. Porém algumas temem que partidos radicais islâmicos, até então banidos, retornem, provocando um retrocesso.

"Mais civilizadas"

Vozes femininas soaram fortes durante os protestos de massa no país. Na capital Túnis, senhoras idosas, adolescentes e mulheres trajando a túnica negra dos juízes desfilaram pelas ruas, exigindo o fim do regime autoritário. Quase nenhuma portava o lenço de cabeça muçulmano, e hoje elas parecem estar por toda parte, participando de tudo ao lado dos homens.


A advogada Irgui Najet, de 36 anos, está envolvida numa discussão de rua, defendendo o governo provisório da Tunísia. Impressionados com seus conhecimentos e com sua argumentação, os homens à sua volta dizem que ela deveria se candidatar à presidência. Ninguém parece ver sua condição feminina como um obstáculo.
Najet define a diferença entre as tunisianas e suas irmãs do mundo árabe: "Nós nos sentimos mais livres e mais civilizadas do que outras árabes. Especialmente após nossa revolução, temos pena das mulheres nos países vizinhos. Olhe a Líbia, onde elas têm que cobrir a cabeça e não podem sequer conversar com os homens: é uma catástrofe!".

Antecedentes feministas

A população feminina da Tunísia é bastante presente: consta mesmo que um terço dos juízes do país são mulheres. Diante da lei, elas possuem o mesmo direito ao divórcio que os homens, e a poligamia é ilegal. Desde 1962, têm acesso ao controle de natalidade e o aborto já foi legalizado em 1965: ou seja, oito anos antes dos Estados Unidos.

As tunisianas devem suas numerosas liberdades e a igualdade ao Código de Direito Civil de 1956, assim como a um excelente sistema educacional, aberto a todos. Elas também são gratas ao presidente Habib Bourguiba, o pai fundador que liderou a luta de independência em relação à França, e que desejava que as mulheres fossem parte integrante da sociedade.

Ninguém atribui o menor crédito ao deposto Ben Ali: segundo Khadija Cherif, ativista do feminismo há anos, o ex-ditador só fingia apoiar os direitos femininos para agradar ao Ocidente.

Um eventual retorno dos partidos radicais islâmicos, banidos sob Ben Ali, poderá representar uma ameaça, mas as mulheres permanecerão vigilantes, promete. "A força do movimento feminista tunisiano foi nunca ter se distanciado da luta pela democracia e pela sociedade laica. Continuaremos a combater, para assegurar que a religião continue totalmente separada da política."


Bildunterschrift: Força feminina, do véu muçulmano à minissaia
De lenço ou de minissaia

A advogada de 31 anos Asma Belkassem tampouco demonstra medo de uma volta dos extremistas religiosos: "O que está certo é que nós, mulheres, temos direitos na Tunísia. Ninguém vai tomá-los: nem os radicais, nem ninguém!".

O advogado Bilel Larbi confirma essa avaliação. Ele considera as manifestações de janeiro a melhor maneira de julgar as relações entre os sexos na Tunísia: "Veja como as tunisianas estiveram lado a lado com os homens. Elas foram às ruas protestar, de lenço na cabeça, de minissaia. Não importa: elas estavam lá!"

Larbi assegura: depois de ter se erguido juntos para derrubar o ditador, os homens da Tunísia não pretendem deixar ninguém retirar as liberdades das mulheres do país.