quarta-feira, 27 de outubro de 2010

NÃO VAMOS ESCOLHER UM MAL MENOR



Valério Arcary
Historiador, professor do Cefet/SP e
membro do conselho editorial da revista Outubro

Se uma pessoa te enganar ela merece uma surra.
Se esta mesma pessoa voltar a te enganar quem merece a surra é você.
Sabedoria popular chinesa


Poucos dias nos separam do segundo turno das eleições presidenciais de 2010. Pela quarta vez, desde o fim da ditadura, haverá segundo turno. A campanha pelo voto útil em Dilma Rousseff aumenta sobre os militantes e eleitores da esquerda anticapitalista. Sob a pressão de uma eleição ainda apertada, a direção do PT abraçou um discurso catastrofista que quer apresentar a disputa entre Serra e Dilma como um armagedon político. Serra seria do mal, Dilma seria do bem. Uma análise marxista abraça um método menos emocional: é uma interpretação da realidade orientada por um critério de classe. Muitas vezes na história os governos dos partidos operários reformistas foram mais úteis para a defesa da ordem que os partidos da própria burguesia: protegiam o capitalismo dos capitalistas. Não indicamos aos trabalhadores a escolha do carrasco menos cruel.

Em 1989 os militantes que se organizam na corrente histórica que constituiu o PSTU chamaram a votar em Lula e o fizeram novamente em 2002. Já em 2006 e agora, convocam ao voto nulo. Duas indicações de voto diferentes. Por quê? Votamos em Lula em 1989, e em 2002, apesar de nossa discordância do programa do PT, porque a maioria dos trabalhadores confiava em Lula e não queríamos ser um obstáculo à sua eleição. Não tínhamos qualquer ilusão em um governo do PT, mas acompanhamos no voto, e somente no voto, a vontade do movimento da classe trabalhadora de levar Lula ao poder, depois de uma espera de vinte anos, alertando que estavam iludidos aqueles que tinham esperança que o governo iria romper com o programa neoliberal de ajuste dos governos de Fernando Henrique. O brutal ajuste de 2003/2004 nos deu razão. A manutenção da taxa de juros mais alta do mundo em 2010, ou seja, a remuneração fácil das aplicações dos rentistas, continua confirmando nosso prognóstico.

E agora, como em 2006, porquê não votaremos em Dilma, se a maioria do movimento organizado dos trabalhadores deseja derrotar Serra? Porque nos últimos oito anos o PT governou o Brasil ao serviço do capitalismo. Os trabalhadores sabem, também, que Lula governou ao serviço dos banqueiros, mas acham que não era possível uma política de ruptura. Os trabalhadores, em situações políticas de estabilidade da dominação capitalista, não têm expectativas elevadas, ou seja, não acreditam senão em reformas nos limites da ordem existente. Não acreditam que é possível porque perderam a confiança em si mesmos, portanto, na força de sua união e de sua luta.

O papel dos socialistas não pode ser o de reforçar essa prostração político-social, mas, ao contrário, o de incendiar os ânimos, inflamar a esperança, e combater a perigosa ilusão de que é possível regular o capitalismo. A tarefa daqueles que defendem o programa socialista consiste em demonstrar para os trabalhadores que era e é possível ir além. Era e continua sendo possível desafiar a ordem do capital. Nas ruas da França milhões de pessoas estão nestes dias impedindo Sarkozy de governar, e provando que a força da mobilização popular pode derrotar o capital.

O argumento simples da direção do PT é o mais eficaz, mas, também, politicamente, o mais infantil: Serra e Dilma são diferentes. É verdade. São, também diferentes do que eram décadas atrás. Muito diferentes. A Dilma que se uniu à resistência armada à ditadura merece respeito. O Serra presidente da UNE que foi para o Chile viver o exílio, também. Mas mudaram e para muito pior. São hoje, cada um à sua maneira, irreconhecíveis com o que foram na juventude.

Nos dizem que, apesar de tudo, Serra e Dilma não são iguais. Não obstante, isso não demonstra que Dilma mereça confiança. Essa opinião não é somente nossa. Não pode ser ignorado que as diferentes frações burguesas financiaram os dois no primeiro turno. Os instintos de classe dos banqueiros, industriais, fazendeiros, rentistas são certeiros. Não por acaso foram, também, generosos com Marina. E nos ajudam a lembrar que não é um bom critério envenenar a polêmica política com a pressão dos curtos prazos. É sempre no tempo de um presente imediato, às vésperas de mais uma eleição, que se agigantam as diferenças entre os candidatos, para encorajar o voto no mal menor, encorajando uma amnésia coletiva.

Que sejam diferentes entre si, portanto, não prova que Dilma mereça um voto sequer de socialistas conscientes. Qual deve ser o critério para aferir as diferenças? A direção do PT e até os camaradas do MST argumentam que as posições sobre privatizações, ou sobre as políticas assistencialistas, ou sobre a repressão às lutas operárias e populares, ou até sobre a relação internacional com os EUA e as outras potências imperialistas justificam o voto em Dilma. Não estamos de acordo com estes critérios. Não entendemos porque é necessário escolher entre um projeto burguês mais estatista e outro mais privatista, se ambos são anti-operários. Esse é um bom critério para quem aposta em um projeto nacional desenvolvimentista, portanto, capitalista, mas não deveria orientar o voto de socialistas. Não entendemos porque é necessário escolher entre um projeto capitalista com mais ou menos políticas públicas assistencialistas. Esse é um bom critério para quem aposta em um projeto de reformas de estabilização do regime democrático-liberal em países de aberrante desigualdade social. Para socialistas inspirados no marxismo o critério na hora de eleições é um critério de classe. Isso não é maximalismo, nem doutrinarismo, é somente classismo. Não precisamos escolher quem será o mal menor. Podemos anular o voto.

É até paradoxal que haja tanta pressão por parte das direções do PT e PCdB e de uma parcela da intelectualidade porque no recente primeiro turno de 2010, os menos de 1% foram os piores resultados da esquerda radical desde o final da ditadura. Esse paradoxo merece uma explicação. Na verdade, os votos somados entregues ao PSOL, PSTU e PCB não farão diferença, e os defensores de Dilma sabem muito bem disso. A audiência conquistada pelas propostas da esquerda socialista foi muito superior aos seus menos de 1 milhão de votos, em especial, nas grandes fábricas e entre a juventude, onde o respeito pelo empenho da militância tem se expressado nos últimos anos em vitórias sindicais, que demonstram que está em curso nos movimentos sindical, estudantil e popular um processo de reorganização significativo, superando as ilusões no bloco PT/PCdB. Acontece que a maioria dos votos que poderiam ter sido entregues à oposição de esquerda já foram capturados pelo PT no 1º Turno. A pressão pelo voto para derrotar o retorno do PSDB ao poder entre os trabalhadores, e a simpatia pelas propostas de regulação ambiental nas universidades, deslocando votos para Marina, foram, eleitoralmente, devastadoras. Uma parcela importante da classe trabalhadora em setores estratégicos – como entre os metalúrgicos, petroleiros, metroviários, construção civil, professores, bancários, e outros - quer os revolucionários à frente dos seus sindicatos, mas ainda não sente segurança em votar nas eleições nos partidos anticapitalistas.

Votações em segundo turno foram sempre uma escolha tática difícil. Táticas são táticas, isto é, são opções conjunturais e somente isso. A mesma aposta estratégica pode traduzir-se em diferentes opções táticas, dependendo das circunstâncias. A maioria da esquerda socialista, por exemplo, chamou ao voto em Lula em 2002. Compreendemos, porém, que seria a melhor alternativa o voto em Lula, porque essa era a vontade da maioria da classe trabalhadora e, depois de duas décadas de lutas, não queríamos colocar qualquer obstáculo à chegada de Lula à presidência. Oito anos depois, o mesmo critério não faz qualquer sentido.

Não serão, portanto, os 1% que definirão quem será o próximo presidente. Na verdade, o que está em disputa não é o apoio eleitoral a Dilma, mas a atitude que a oposição de esquerda terá diante do novo governo: um voto crítico em Dilma sinaliza uma disposição de apoio crítico ao futuro governo da coligação PT/PMDB. Oxalá esse não seja o caminho daqueles, como os deputados eleitos pelo PSOL, que já anunciaram o voto em Dilma. Mas, esse é o perigo. Ilusões perigosas se disseminam nas bases eleitorais da oposição de esquerda quando se decide pelo mal menor. Por isso, tem muito valor a declaração de Plínio de Arruda Sampaio pela anulação do voto no segundo turno. Tem igual mérito a mensagem de Heloísa Helena. A esquerda anticapitalista não pode ter como estratégia ser uma fração externa do PT que exerce pressão pela esquerda. Sua estratégia deve ser a construção de uma oposição revolucionária ao governo Dilma.

domingo, 24 de outubro de 2010

"Políticos devem mais aos financiadores do que a eleitores"



Da Redação - Pollyana Araújo

O presidente da Associação Nacional de Magistrados, Procuradores e Promotores Eleitorais (Abramppe) e membro do Movimento Nacional de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), Marlon Jacinto Reis, em visita a Cuiabá, afirmou que os políticos devem mais aos financiadores de campanha do que aos próprios eleitores. Por isso, defende o financiamento público das campanhas evitando que os detentores de cargos eletivos tenham “dívidas” com grandes empresários.

“Hoje já existe financiamento público ilegal de campanha e é dado para quem está no poder”, criticou, durante o Fórum Estadual pelo Voto Consciente, realizado nesta segunda-feira (23), numa referência aos políticos que buscam a reeleição, já beneficiado pela máquina pública, diretamente ou indiretamente.

Um dos idealizadores da Lei Ficha Limpa, o magistrado avalia ainda, ao se manifestar contrário à compra de voto, que há uma cultura de que a política deve atender aos interesses privados, o que é um erro. O magistrado vê como preocupante o alto custo das campanhas e, segundo ele, o que encarece mais ainda são as campanhas individuais.

Marlon Jacinto pontua que a cultura da compra de votos está impregnada em todas as camadas sociais e para coibir esse tipo de crime, além da fiscalização, defende que é preciso haver conscientização, a ponto da sociedade passar a fazer doação ao invés de receber dinheiro dos candidatos, como ocorre nos Estados Unidos.

Para ele, é evidente que o candidato que oferece algo em troca de voto possua interesse de desviar dinheiro público em benefício próprio. “É muito óbvio que a pessoa que está dando dentadura e outros objetos na campanha está anunciando publicamente que vai participar do processo eleitoral com interesse de dilapidar o patrimônio público”, declarou.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Valério Arcary ao Diário Liberdade: 'Deve haver uma delimitação clara entre a esquerda e o próximo governo'




Diário Liberdade - As circunstâncias levaram a que um companheiro galego do Diário Liberdade entrevistasse um destacado dirigente da esquerda revolucionária brasileira na capital de Portugal neste mesmo sábado.

Valério Arcary, reconhecido intelectual brasileiro, docente universitário em São Paulo e historiador especialista no papel das revoluções na História Contemporânea mundial, passou boa parte da sua juventude em Lisboa, onde viveu diretamente a Revolução dos Cravos e os anos que se seguiram ao 25 de abril de 1974.


Conhecedor e apoiante da luta independentista e revolucionária galega, o conhecido dirigente do PSTU do Brasil é colaborador habitual do Diário Liberdade, onde periodicamente publica artigos analíticos sobre a realidade brasileira com uma perspectiva marxista. Nesta ocasião, concedeu-nos uma entrevista na qual analisa os resultados das recentes eleições brasileiras e as perspectivas que se abrem para o Brasil, para a América Latina e também para a Europa, no quadro de uma profunda crise sistémica capitalista.

O lugar do encontro foi a bela Lisboa, aproveitando uma visita de Valério Arcary à Europa. No Jardim do Príncipe Real, perto do Bairro Alto da capital portuguesa, desenvolveu-se a nossa conversa, cujo conteúdo reproduzimos a seguir para as nossas leitoras e os nossos leitores:


Diário Liberdade - Começamos, Valério, por pedir que nos faça uma breve avaliação sobre os resultados do primeiro turno das eleições brasileiras.

Valério Arcary - A primeira coisa que há que dizer sobre estas eleições é que, seja qual for o resultado do segundo turno, e o mais provável é a vitória de Dilma, pois as pesquisas de hoje (dia 16) já indicam que ela tem uma vantagem em torno de dez milhões de votos em relação a Serra, 54% contra 46%... mas, como digo, seja qual for o resultado, não haverá surpresas nestas eleições: 'business as usual', ou seja, está tudo numa grande tranquilidade para os grandes monopólios, para os credores da dívida, para o sistema financeiro... está tudo dominado.

Porém, sim houve uma surpresa no primeiro turno, como foi a votação da Marina Silva, que obteve 20%.

DL - Como se explica o fenômeno Marina Silva?

Valério Arcary - Ela ocupou um espaço que demonstra a existência de um desgaste no período do governo Lula, que se manifesta através de uma candidata que faz um discurso com uma visibilidade como sendo de esquerda. É um discurso de regulação ambiental, que exige uma modernização do país, que aposta num Estado mais fiscalizador, que estabeleça limites para a ação das empresas. Assim, ela atraiu uma parte do eleitorado urbano jovem descontente com "a grande política", ou seja, PT e PSDB, o campo do centro-esquerda e centro-direita.

Marina atraiu uma parte desse eleitorado e, na reta final, ela deu um pulo de uma expectativa de 13 ou 14% para 20%, atraindo setores que podemos chamar de subproletariado, de fortes convicções evangélicas, que têm referências culturais inspiradas no pensamento mágico, na religiosidade popular ou "cristianismo de autoajuda", a partir da diabolização da questão do aborto.

Houve uma despolitização na reta final da campanha, "acusando" a candidata Dilma Rousseff de ser a favor da legalização do aborto. Este é, no Brasil, um tema muito pouco discutido, que nunca foi debatido nos meios de comunicação, nem as posições feministas tiveram acesso à televisão para poderem argumentar a favor da legalização do aborto como uma questão de saúde pública. Isso conseguiu desviar uma parte da votação para Marina Silva.

A oposição burguesa de direita que se apresentou através de Serra teve um triunfo parcial, que foi conseguir o segundo turno. O prestígio do governo e a força da máquina pública durante a campanha sugeriam, duas ou três semanas antes do primeiro turno, que Dilma Rousseff poderia vencer no primeiro turno, como já tinha conseguido a direita nos anos 90.



DL - E os resultados da esquerda revolucionária, como os avalia?

Valério Arcary - Surgiu uma oposição de esquerda no Brasil, através de um processo de reorganização que se expressa no plano sindical, popular, camponês, feminino, estudantil... e também política. O processo de fortalecimento social está sendo mais acelerado do que o fortalecimento da oposição de esquerda, mas ela existe e em 2006 conseguiu uns 7% através da candidatura de Heloísa Helena.

Ocorre que nestas eleições não foi possível unificar a oposição de esquerda e surgiram quatro candidaturas (PSOL, PSTU, PCB e PCO). A Frente de esquerda atingiu em 2006 um resultado minoritário, mas não marginal. Aquela influência eleitoral de massas era em grande medida dependente da personalidade da candidata Heloísa Helena, que era senadora eleita pelo PT, com mandato de oito anos, o que lhe tinha dado uma presença nacional a partir do senado, que no Brasil é uma verdadeira "Câmara de Horrores", com escândalos de corrupção uns atrás dos outros.

Heloísa Helena conquistou assim uma visibilidade merecida em aquele ambiente, com um discurso democrático radical.

Porém, a apresentação de Marina provocou um giro na direção do PSOL e em Heloísa Helena, decidindo apoiar essa candidatura, que na verdade, apesar do seu discurso ambientalista, não é um partido verde como são os partidos verdes na Europa. Foi uma candidatura com o apoio de uma fração burguesa: o vice de Marina Silva foi um grande empresário da área dos cosméticos, dono do Grupo Natura. Ele financiou a campanha com alguns milhões de dólares e isso garantiu a Marina uma disputa menos desigual com as candidaturas de Dilma e de Serra.

Por outro lado, há que ter em conta que os meios de comunicação no Brasil são privados e controlados por umas poucas famílias desde há mais de 80 anos, carecendo de qualquer controlo e democratização apesar dos 25 anos passados desde o fim da ditadura. O Grupo Frias na Folha de São Paulo, o Grupo Mesquita no Estado de São Paulo, a família Marinho na TV Globo, o Grupo Sílvio Santos no SBT... é sempre assim e, a escala regional, em cada um dos estados, temos canais de televisão controlados da mesma maneira: a família Sarney (que controla o governo do Estado) no Maranhão, a família Collor (que já foi governador e presidente da República) em Alagoas... e o mesmo acontece na Bahía, no Rio Grande do Sul, no Paraná... pelo país todo afora.

Então, os meios de comunicação decidiram dar corda à candidatura de Marina Silva, o que significou presença diária no principal jornal da TV Globo, com audiência de 70%. Os outros candidatos foram ignorados, a não ser uma entrevista ao Plínio e um debate ao qual o PSOL foi convidado.

A esquerda não se unificou porque o PSOL manteve o apoio a Marina até que o PV de Marina recusou publicamente uma proposta de acordo, optando por uma coalizão no Rio de Janeiro entre o candidato do PV, Fernando Gabeira, ele sim histórico do Partido Verde, diferentemente da Marina, que vem da esqueda católica do Acre no interior do PT, com todos os candidatos da direita contra Sérgio Cabral, presidente estadual pelo PMDB (uma espécie de 'fraternidade de salafrários', o partido mais corrupto, formado por oligarcas e caciques regionais).

Isto pode parecer, para um leitor não brasileiro, um manicômio político, mas esta complexa arquitectura gera situações pitorescas como esta: um partido de esquerda socialista querendo apoiar uma candidata que veio da esquerda católica, que é antiabortista, através de um Partido Verde, que na Europa são predominantemente partidos urbanos associados a causas ambientalistas, mas que também defendem medidas de reforma dos códigos civis arcaicos como a legalização do aborto. Porém, Marina Silva é uma arqui-inimiga da pesquisa em células tronco, da legalização do aborto e defende posições abertamente reacionárias no plano dos costumes.

O apoio do PSOL a esse partido obrigou o PSTU a apresentar a pré-candidatura do operário metalúrgico e líder da Conlutas José Maria de Almeida. Levou também o PCB a apresentar a pré-candidatura de Ivan Pinheiro, ex-líder bancário e dirigente histórico do Partido Comunista.

A candidatura de Marina conseguiu ganhar uma parte do voto jovem urbano e parte do voto proletariado industrial contra a direita e também parte do voto do sub-proletariado.

DL - No segundo turno, as candidaturas de esquerda têm posições diferentes: o PCB e o PSOL pedem o voto contra Serra e o PSTU e o PCO chamam ao voto nulo. Que perspectivas se apresentam para uma eventual confluência das forças da esquerda?

Valério Arcary - Um grande partido de esquerda sem um acordo programático sobre o que significa a luta contra o capitalismo, inevitalvemente será um partido eleitoral. Não vejo porque nós estaríamos imunes às pressões oportunistas que levaram à degeneração do PT, nos convertendo em uma força eleitoral que funcione como esquerda do regime, da qual precisa o sistema democrático-liberal presidencialista que temos no Brasil, e não creio que na Europa seja diferente. O PT, que quando nasceu não era a esquerda do regime, foi se transformando nisso, a esquerda do "sim, senhor", a esquerda parlamentar, que quando não está no governo declara oposição, mas que deixa o governo governar.

Nós no PSTU não queremos um partido que seja de oposição nas palavras e de apoio à ordem nos atos. Portanto, não acreditamos que seja possível construir um partido comum com o PSOL e com o PCB. O fato de o próprio PCB chamar a votar em Dilma -e lembremos que o PCB chegou a participar no governo Lula no primeiro mandato, durante alguns anos- e o fato de o PSOL liberar o voto contra Serra, admitindo o voto em Dilma, demonstra que, do ponto de vista desses partidos, não há uma clareza estratégica de que o governo Dilma não merece a nossa confiança como o governo Lula não merecia nossa confiança.

Nós somos a favor de construir um bloco para a ação através dos instrumentos de luta que a classe trabalhadora já construiu no Brasil, que são os movimentos sociais e os sindicatos. E mais: estamos engajados para que a experiência da CSP-Conlutas, de unificação com os sindicatos independentes do governo, permita construir uma central sindical superior. A Central Sindical Popular, herdeira da Conlutas, que não foi possível fundar no Congresso de Santos, em junho de 2010, é, em nossa opinião, a prioridade da agenda da esquerda. É no interior dos sindicatos, dos movimentos sociais, dos movimentos da juventude, no movimento estudantil, no movimento de mulheres, que nós temos que agir juntos, apoiados na experiência dos próprios trabalhadores, como agora acontece na greve dos bancários.

No terreno político, deve haver uma delimitação clara com o governo, seja ele qual for o eleito no segundo turno, embora muito provavelmente será o governo Dilma. Nós lamentamos que a Frente de Esquerda não tenha sido construída, evidentemente. A esquerda teve um resultado insatisfatório, menor que 1%. Nós fomos devorados pela pressão do voto útil na classe trabalhadora e do voto em Marina nos setores mais instruídos, que poderiam encontrar na esquerda socialista um ponto de apoio para as suas aspirações democrático-radicais.

DL - Pode haver avanços nessa via na confluência dessa esquerda socialista nos movimentos sociais depois da experiência de Santos?

Valério Arcary - Nós estamos convencidos de que sim, de que isso é possível chegarmos a um acordo para a unificação, tendo em conta que as lições de Santos são amargas. Todos cometemos erros: uns mais, outros menos, e o balanço pode não ser comum, mas a esquerda tem que olhar para a frente e não para trás. Não deve impor-se condição um acordo sobre o balanço dos erros e acertos no passado.

Diante do governo Dilma, que seguramente vai, no primeiro ano, tomar medidas duras de ajuste no orçamento, de corte nos gastos e políticas públicas, vai ser preciso a esquerda socialista ter a lucidez e a valentia de ser o ponto de apoio e ajudar os trabalhadores a enfrentar seus inimigos.

DL - No plano internacional, há consenso sobre o papel de vanguarda que está jogando a América Latina nas lutas dos povos contra o imperialismo e o capitalismo a nível mundial. Aí o papel do Brasil deverá ser fundamental para o triunfo revolucionário. É possível avançar para a via da revolução brasileira?


Valério Arcary - Nós pensamos que as ilusões e esperanças no governo Lula e no PT estão sendo desgastadas. O voto no PT já não é mais o que foi no passado. O PT, o Lula e a própria candidatura de Dilma ainda mantém uma enorme influência na classe trabalhadora, mas não há mais a mesma confiança.

Porém, a classe trabalhadora é prudente e cautelosa nas suas escolhas políticas, e preferiu votar em Dilma, confiando na indicação de Lula, com medo do retorno do que foi o governo Fernando Henrique, representado pela candidatura de Serra.

Nós estamos convencidos de que o governo Dilma vai acelerar a experiência, vai ser muito reacionário e o processo de reorganização sindical, que já mostra como muitos trabalhadores querem os revolucionários nos sindicatos, ainda que depois não votem neles nas eleições. Essa confiança sindical que já existe pode evoluir para uma confiança política, na medida que a experiência com o PT e com Dilma for mais rápida.

Pode se abrir um espaço político maior. 1% dá uma ideia falsa do que é a esquerda socialista no Brasil. Foi um resultado dramático, muito ruim, implacável -há que chamar as derrotas pelo seu nome e não diminuí-las nem iludir-nos-. Esta foi a derrota mais importante da esquerda socialista desde o fim da ditadura, mas foi uma derrota eleitoral, não é preciso exagerar.

Há que compreender por que os trabalhadores fizeram voto útil em Dilma, porque é que a juventude urbana fez voto em Marina, e há que, ao mesmo tempo, olhar para a frente com a cabeça erguida. Nossa influência política é maior do que os votos que tivemos, desta vez os trabalhadores não nos entregaram os seus votos, mas nós estamos convencidos que nas próximas lutas encontrarão os militantes do PSTU ao seu lado e caminharemos juntos.

DL - Olhando para o mundo e para a crise do sistema capitalista, acha que vão abrir-se espaços para avanços e mesmo para vitórias revolucionárias que permitam a humanidade caminhar em direção ao socialismo?

Valério Arcary - Nós, como marxistas, sabemos que, ao contrário do que diz a propaganda dos meios de comunicação, a crise do capitalismo tem flutuações, mas ela ainda não foi superada: não houve uma destruição de capitais suficiente que é a pré-condição para uma nova fase de expansão e de crescimento.

Isso significa que vão tentar destruir mais, como acontece na Grécia, como Sarkozy faz na França ou Zapatero no Estado espanhol e Sócrates em Portugal.

Começaram as reações: assistimos a grandes mobilizações na Grécia, a força da greve geral em França, com a adesão dos estudantes e a ameaça de um novo Maio de 68, e a força da greve geral no Estado espanhol, que foi das mais importantes dos últimos anos. O proletariado europeu colocou-se em movimento.

Ao contrário que outras correntes da esquerda mundial, nos no Brasil sempre tivemos muitas esperanças na classe trabalhadora europeia. Falo da classe operária industrial, do proletariado, dos setores médios com alta escolaridade, mas baixos salários ou estão diretamente no desemprego, falo da juventude precária... a sociedade europeia tem dentro dela forças sociais que podem ser liberadas, com uma enorme combatividade imanente, e isso é vital para o futuro da revolução mundial. Oxalá que o eixo latino-americano-europeu possa se unificar. É disso que se trata: o ataque é mundial e a resposta deve ser mundial. O que agora fazem na Europa é o que já fizeram ou tentam fazer em outras reuniões do mundo, como por exemplo na América Latina.

DL - Como bom conhecedor da realidade da Galiza, acha que as nações oprimidas têm um papel a jogar nessas lutas, no caso do continente europeu e, concretamente, no Estado espanhol?

Valério Arcary - Sim, eu acho que sim. No caso das nações oprimidas, como é o caso da Galiza, a construção de um bloco operário e popular, ou inclusive operário, democrático e popular, é fundamental para derrotar o capitalismo do Estado espanhol e a própria burguesia galega. A classe trabalhadora deve atrair os setores populares urbanos e no programa da revolução da Galiza, além dos interesses do proletariado, estão os interesses da nação. Esse bloco a que fiz referência será tanto maior quanto os trabalhadores conseguirem atrair a maioria dos setores médios para a defesa das suas reivindicações.



Entrevista publicada em 18 de outubro de 2010, no site www.diarioliberdade.org.

Cuba: Em nome do “socialismo”, 500 mil empregados estatais são demitidos - Defendamos os trabalhadores cubanos contra o ajuste capitalista

Liga Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional


Recentemente, tornou-se público que o Estado cubano vai demitir 500.000 trabalhadores (10% da força trabalhista do país), como parte de um plano de ajuste bem mais profundo. Gerou-se um grande debate na esquerda mundial sobre o significado desta medida, que se soma à polêmica já existente, há vários anos, sobre qual é a verdadeira realidade em Cuba.





Para o governo cubano e seus defensores nacionais e internacionais, essas medidas são apresentadas como uma necessidade para “defender” e “modernizar o socialismo”, adequando-o às atuais condições econômicas e políticas internacionais. Pelo contrário, a única explicação real é que estas medidas são a consequência inevitável do fato de o capitalismo já ter sido restaurado em Cuba, e só podem ser entendidas nesse marco, como uma resposta de um governo capitalista à atual crise econômica internacional e cubana em particular.

Criar “exército industrial de reserva”

A demissão de meio milhão de trabalhadores integra um plano de ajuste bem mais global e contínuo: à cifra inicial se somará um número igual de demissões nos próximos cinco anos. Isto é, o Estado cubano vai despedir 20% da força de trabalho do país. Qual será o destino dos trabalhadores estatais demitidos? Em Cuba não há o seguro-desemprego. A propaganda oficial fala de “realocá-los em outros setores”, isto é, na economia privada.

Ao mesmo tempo, foram liberadas 178 novas atividades ou profissões para realizar trabalhos autônomos ou por conta própria (TCP), das quais cerca da metade terão autorização para contratar empregados.



O próprio diário oficial Granma estima que umas 250.000 pessoas deverão se estabelecer como TCP e a outra metade deverá ser realocada em cooperativas formadas pelos demitidos (como as que já existem de táxis e de salões de beleza) ou diretamente na atividade privada.

Tal qual a experiência de outros países indica, grande parte destes trabalhadores por conta própria e cooperativas quebrarão em um prazo mais ou menos curto. O que, inclusive, é reconhecido por um documento interno do Partido Comunista Cubano: “Muitos podem quebrar antes do fim do ano” (Clarín, 15/09/2010). Em outras palavras, a maioria passará a engrossar a massa de exploração das empresas privadas ou se somarão aos 400.000 trabalhadores desempregados já existentes, ampliando assim o que Marx chamou de “exército industrial de reserva”.

Mais medidas

Outras medidas de ajuste são o fechamento dos restaurantes populares subsidiados e o fim da caderneta de entrega de produtos alimentícios básicos a baixíssimos preços, um componente muito importante na cesta básica de consumo dos setores mais pobres.

A isto se soma o recente anúncio de que educação e saúde públicas deixarão de ser universalmente gratuitas e que vai começar a ser aplicado “um pagamento total ou parcial” dos ditos serviços. Como em outros governos capitalistas de todo mundo, tratam de dourar a pílula e dizem que “somente pagarão os setores de maiores rendimentos”, um argumento que já sabemos como termina pela experiência de outros países.

Finalmente, todas estas medidas se dão, ademais, no marco de um processo de contínua e profunda deterioração do valor do salário dos trabalhadores públicos (que oscila na maioria em um valor equivalente de 10 a 15 dólares mensais até uma minoria que atinge de 35 a 40), muito abaixo do que obtêm (por diversas vias) os trabalhadores privados do turismo ou do comércio.

Um economista governamental, Omar Everleny Pérez Villanueva, calcula que, comparado com o ano de 1989, “o salário real equivalia a 24%”, em 2009. Isto é, a grande maioria dos trabalhadores cubanos perdeu, nestes 20 anos, mais de ¾ de seu poder aquisitivo.

Ao mesmo tempo, o governo cubano está prestes a autorizar ao grupo britânico Esencia Hotels & Resorts, associado com a empresa cubana Palmares S.A., a construção de 16 novos campos de golf privados nos quais, além disso, terão moradias de luxo para estrangeiros, em lugares paradisíacos como Varadero e Pinar del Rio.

Se enumerássemos estas medidas, sem dizer em que país são aplicadas, todo mundo chegaria à conclusão de que se trata de um clássico plano de ajuste capitalista que ataca os trabalhadores em benefício das empresas e seus lucros, como o que aplicam os governos da Grécia, Espanha ou França. Sem dúvidas, toda a esquerda chamaria a lutar contra esses planos e apoiaria as greves e manifestações que fizessem os trabalhadores, como acaba de acontecer na Europa.

Mas ao serem aplicadas em Cuba, o governo e muitos militantes e organizações de esquerda que o apoiam em todo mundo dizem que essas medidas não fazem parte de um “ajuste capitalista”, senão de uma “defesa do socialismo”.

Raúl Castro afirmou: “Devemos apagar para sempre a noção de que Cuba é o único país do mundo no qual pode se viver sem trabalhar” (Granma, 2/8/2010). A posição de Raúl parece por demais com a de qualquer patrão ou governo capitalista: os trabalhadores empregados pelo Estado são “bons vivants” que não querem trabalhar e o Estado deve livrar-se deles para que continuem suas vidas.

O segundo pós-guerra e o processo cubano

A revolução cubana, iniciada em 1959, foi parte de uma série de processos do segundo pós-guerra que deram origem a novos Estados operários com economias de transição ao socialismo (como Iugoslávia, China e Cuba), grandes conquistas dos trabalhadores, chegando a abarcar a um terço da humanidade.

Em Cuba, a direção de Fidel e Raúl Castro e a de Che Guevara não era oriunda dos partidos comunistas, senão da pequena-burguesia que lutava contra a ditadura de Batista e pela democracia. Uma vez tomado o poder, empurrada pela pressão de circunstâncias, esta direção definiu avançar além de seu programa inicial, romper com o imperialismo e a burguesia cubana e expropriá-los, e iniciar a construção do primeiro Estado operário da América Latina.

O povo cubano conseguiu avanços imensos na educação e na saúde públicas, com níveis comparáveis aos países imperialistas, e superou, nestes aspectos, o Brasil, México ou Argentina. Eliminaram-se a pobreza extrema e a miséria, algo reconhecido pelos próprios estudos dos organismos internacionais imperialistas.

Cuba converteu-se em um símbolo do que era capaz de conseguir uma revolução socialista, nas próprias barbas do imperialismo. Seus dirigentes, Fidel e Che Guevara, passaram a ser a referência política de milhões de lutadores e revolucionários no mundo.

Mas, desde o início, essa direção reproduziu em Cuba o modelo burocrático e antidemocrático do stalinismo soviético, conhecido como “socialismo em um só país”. Coerente com essa posição, em sua política externa sempre primou pela defesa de seu próprio Estado e pela busca de acordos com governos burgueses “amigos” em detrimento do desenvolvimento dos processos revolucionários, como o mostram seu apoio aos governos de Juan Perón, na Argentina, e de Velasco Alvarado, no Peru, na década de 1970. Essa foi sua orientação à direção sandinista em 1979, de não avançar para a expropriação da burguesia e a construção de um novo Estado operário na Nicarágua.

A restauração em Cuba

A partir da segunda metade dos anos 70, os desastres da direção burocrática e a mudança nas condições econômicas internacionais levaram à estagnação e às crises das economias de transição nacionais em todo o Leste. A burocracia stalinista abandonou qualquer defesa das bases dessas economias e começou a aplicar, de modo cada vez mais acelerado, planos restauracionistas.

Em Cuba, entre 1977 e 1983, foram feitas uma série de reformas pró-capitalistas isoladas e parciais, que prepararam o caminho, mas que ainda não significavam a restauração do capitalismo. Nesse período, legalizaram-se as cooperativas e liberaram-se uma série de trabalhos e profissões à atividade privada.

Mas, a partir de 1990, teve uma mudança de qualidade: depois da restauração capitalista na URSS, em 1986, e a queda da própria URSS, em 1991. A crise da economia cubana deu um salto, debilitada ainda mais pela suspensão da ajuda que antes lhes prestava a burocracia soviética.

A direção castrista, com o próprio Fidel no comando, passou a aplicar uma política plena de desmonte das bases essenciais do Estado operário. Com essa política, deixaram de existir: a expropriação das principais alavancas da economia, sua centralização em mãos do Estado, o plano econômico estatal planificado centralmente e também se terminou com o monopólio do comércio exterior. Foram todas medidas tomadas nos anos 90, como a dissolução da Junta Central de Planejamento (1992), a autorização às empresas para comercializar livremente com o exterior e a Lei de Investimentos Estrangeiros (1995) que permitiu a existência de empresas privadas estrangeiras com direito a repatriar até 100% de seus lucros. Cuba voltou a ser um Estado capitalista porque sua economia ordena-se agora ao redor do pleno funcionamento da lei do valor e da busca do lucro privado.

A penetração imperialista na ilha

A restauração não se expressou na volta da velha burguesia gusana [1] de Miami, senão no domínio cada vez maior de sua economia por parte dos imperialismos europeus, especialmente o espanhol e o canadense, em ramos centrais como o turismo e o comércio, com uma dinâmica cada vez mais semi-colonial.

No setor de turismo, o que mais contribui ao país com rendimentos em dólares, quase a metade dos quartos disponíveis são administradas por empresas estrangeiras, com forte peso espanhol, por meio dos grupos Sol-Meliá e Barceló.

Na mineração de níquel e cobalto (Cuba ocupa o primeiro e segundo lugar mundial em reservas, respectivamente), a empresa cubano-canadense Metalúrgica de Moa, com participação da multinacional Sherritt, controla 40% da exportação total do níquel.

No setor petroleiro, abriu-se a exploração de áreas do golfo do México para Repsol- YPF, Petrobrás, Ocean Rig (Noruega) e Sherritt Gordon (Canadá). Na construção, começam a ter peso os capitais israelenses, que, por meio da empresa Waknine e Beresousky, também controlam 68% da comercialização de cítricos e sucos. O mesmo ocorre nas tradicionais produções de fumo e rum. A principal produtora de charutos de Cuba vendeu 50% a Altadis, hoje parte do grupo inglês Imperial Tobacco, e a empresa fabricante do famoso rum Havana Club passou a ser controlada pelo grupo francês Pernod-Ricard.

Portanto, hoje Cuba não está isolada comercialmente e, pelo contrário, recebe investimentos de todo o resto do mundo.

Na verdade, teve um período inicial em que, devido à expropriação da burguesia, o imperialismo tratou Cuba como sua inimiga, fez tentativas de invasões como a da Baía dos Porcos, planejou atentados e construiu um forte bloqueio político e comercial. Mas a partir dos anos 80 e 90, com as aberturas ao mercado e depois a restauração do capitalismo, cada vez mais setores do próprio imperialismo passaram a comerciar e investir em Cuba, em especial o imperialismo europeu.

Somente o imperialismo norte-americano mantém um bloqueio comercial, em função da burguesia gusana que tem força dentro dos EUA e que exige a manutenção do bloqueio para garantir a recuperação de seus bens expropriados depois da revolução. Mas inclusive em relação aos EUA, em que pese às leis que impedem um comércio completo com Cuba, o comércio com a ilha vem crescendo principalmente no que está permitido. Isto ocorre porque cada vez mais setores da burguesia ianque querem liberdade para poder investir e comercializar com Cuba e não perder para os seus competidores essas oportunidades. Por isso, os EUA já estão hoje entre os 5 maiores sócios comerciais de Cuba.

As similaridades com a China

Pode parecer estranho que falemos de restauração capitalista quando permanecem no poder os mesmos dirigentes que encabeçaram a revolução e que falam permanentemente da “defesa do socialismo”. Este último não significa nada: Gorbachov, na ex-URSS, e os dirigentes do Partido Comunista chinês trataram de esconder sua política de restauração com discursos "socialistas".

Mas se na Rússia e no Leste da Europa os PCs (Partidos Comunistas) perderam o poder, o processo chinês mostrou que pode ser restaurado o capitalismo sem mudar o regime político. O PC chinês conservou seu poder hegemônico, mas o país deixou de ser um Estado operário e passou a ser um país capitalista administrado pelos dirigentes do PC, que se beneficiam com os novos negócios.

Na China, o fato de que o regime político seja dominado de modo ditatorial pelo PC, longe de frear a restauração capitalista, favoreceu-a dando lugar a um dos maiores níveis de exploração dos trabalhadores no mundo.

A verdade é que, para além das diferenças entre ambos os países, em Cuba se deu um processo similar à "via chinesa” ao capitalismo: a restauração foi impulsionada pelo PC. Não é casual que o mesmo Fidel Castro fale de modo elogioso do “modelo chinês”.

Basta de manchar o nome do socialismo

Tanto o governo cubano como seus defensores nacionais e internacionais reconhecem a existência destas medidas. Mas dizem que se trata da “defesa do socialismo”! Basta de manchar o nome do socialismo chamando de “transformações necessárias” a brutal exploração dos trabalhadores na China ou o plano de ajuste capitalista do governo dos Castro!

Aqueles que honestamente crêem defender o socialismo apoiando e justificando estas medidas prestam um desserviço à verdadeira luta pelo socialismo. Porque milhões de trabalhadores no mundo, ao ver a realidade cubana ou chinesa, vão pensar: “para que lutar pelo socialismo se significa a mesma exploração ou o mesmo plano de ajuste que vivo sob o capitalismo?”.

A verdadeira defesa do socialismo passa hoje em Cuba por impulsionar a luta dos trabalhadores contra este plano de ajuste e contra o governo que o aplica, e apoiá-las e defendê-las quando essas lutas comecem a surgir. Passa também por exigir as liberdades democráticas, o direito de greve e a possibilidade de organizar livremente sindicatos independentes do estado para que os trabalhadores possam se defender dos ataques do governo.

Somente desenvolvendo as lutas contra o ajuste capitalista do governo cubano, será possível preparar as bases para uma revolução socialista que realmente leve a classe operária ao poder.
____________________________________________
NT:
[1] Gusanos: a palavra significa literalmente vermes. Assim é conhecida a burguesia reacionária de Cuba que se exilou na Flórida, EUA.

Tradução: Rosangela Botelho

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A esquerda socialista e o segundo turno - Polarização entre Dilma e Serra esquenta debate sobre a melhor forma de combater a direita




Eduardo Almeida Neto
da Direção Nacional do PSTU e editor do Opinião Socialista

Está havendo uma pressão grande do governo e seus apoiadores no sentido de votar na Dilma “para evitar a volta da direita”. Temos acordo completo com a luta contra a oposição de direita. Somos radicalmente contra a volta da turma do FHC. Os governos do PSDB foram fundamentais para introduzir o neoliberalismo no Brasil, com privatizações e ataques aos direitos dos trabalhadores. Por isso, o PSTU atacou com clareza este partido na TV e teve o programa final da campanha presidencial retirado do ar, a pedido de Serra.

Mas lutar contra a direita não significa votar em Dilma Rousseff. Não podemos adotar a luta unicamente contra Serra, sob pena de capitular à pressão da colaboração de classes praticada pelos governos do PT.

Infelizmente o PSOL acabou cedendo a essa pressão e está defendendo nesse segundo turno o “Não à Serra”, o que significa, na prática, o chamado ao voto em Dilma Rousseff. Os três deputados federais e um dos dois senadores eleitos por esse partido apóiam explicitamente a candidatura Dilma nesse segundo turno. O PCB também se definiu pela mesma posição. Isso, na prática, legitima a falsa polarização entre os dois projetos majoritários da burguesia. Reconhece na candidatura Dilma a expressão da “esquerda” nessas eleições, o que é completamente equivocado




Tanto Serra quanto Dilma vão atacar os direitos dos trabalhadores

Nessa campanha, a direita – entendida como a representação da grande burguesia –não está representada apenas por Serra, mas também por Dilma. No Brasil, as grandes empresas estão divididas nas eleições. Um setor apóia Serra, o que é mais do que evidente nas empresas de TV e nos principais jornais. Mas a maioria do grande capital, no entanto, que inclui os banqueiros, as multinacionais, os governos imperialistas, apóia política e financeiramente as duas campanhas.

As duas são financiadas pela grande burguesia. A campanha de Dilma arrecadou bem mais que a de Serra, até agora. O dólar se manteve estável nas eleições, estando abaixo de R$ 1,70. Todos lembramos do dólar perto dos R$ 4 nas vésperas das eleições de 2002, quando a burguesia ainda temia o que podia ser o governo Lula. Agora o grande capital confia no PSDB... e no PT.

Votar Dilma ou Serra é manter o plano econômico neoliberal aplicado por FHC e continuado por Lula. É manter bloqueada a reforma agrária, como aconteceu no governo FHC e também no de Lula. É aceitar a ocupação militar do Haiti defendida por Dilma e Serra.

Votar em Serra seria votar junto com FHC, Cesar Maia, Yeda Crusius, velhas figuras da direita desse país. Votar em Dilma seria votar junto com Maluf, Collor, Sarney, Jader Barbalho, outras velhas figuras da mesma direita.

Não existe um “mal menor” nesse segundo turno. Votar em Dilma ou Serra vai fortalecer um deles para atacar com mais força os direitos dos trabalhadores. Um governo do PSDB ou do PT vai atacar duramente os trabalhadores quando a crise econômica internacional chegar novamente ao Brasil. Tanto um como outro já anunciaram sua disposição de aumentar a idade mínima para a aposentadoria. Cada voto dado em Dilma ou Serra é uma força a mais que eles terão para aplicar uma nova reforma da Previdência.

Por vezes, é necessário saber ficar em minoria, quando é necessário. O PSTU defende com clareza o voto nulo nesse segundo turno, e chama os outros partidos de oposição de esquerda socialista a se somarem a essa posição. Essa é a melhor maneira de começar a preparar a luta direta dos trabalhadores contra o novo governo eleito.

JOSÉ ARBEX RENUNCIA AO CONSELHO EDITORIAL DO BRASIL DE FATO


Car@s

Acabo de ler a versão virtual da tiragem especial sobre eleições.

Tenho dois comentários e algumas considerações:

1. Tecnicamente, o jornal atingiu o auge. A apresentação está tecnicamente perfeita, bonita, agradável, acessível.

2. Politicamente, o jornal também atingiu o auge, no sentido de ter chegado a um limite: não se trata mais de um jornal, mas sim de um panfleto especial sobre as eleições. Para mim, isso significa a morte do jornal Brasil de Fato e o nascimento oficial de mais um órgão chapa branca. Um órgão tecnicamente perfeito, mas politicamente subordinado ao lulismo.

Sem entrar no mérito das posições, é conhecido o fato de que vários setores da esquerda não apoiam a candidatura Dilma, embora sejam contrários à candidatura Serra. Plínio de Arruda Sampaio, por exemplo, acaba de lançar um manifesto propondo o voto nulo. Eu mesmo me manifestei contrário ao apoio a Dilma, embora não tenha defendido o voto nulo. E a posição dos companheiros da Refundação Comunista é favorável ao voto em Dilma, mas com todos os “mas”, “senões” e “talvez” que desaparecem da edição especial: o lema da Refundação, se não estou enganado, é: “derrotar Serra nas urnas e a Dilma nas ruas”, o que está longe de transformar Dilma em ícone da redenção nacional (coisa que a edição especial faz, na pratica, sem o menor pudor).

O jornal Brasil de Fato, obviamente, só considera digna de publicação no especial sobre as eleições a posição que apoia explicitamente a candidatura Dilma. O jornal Brasil de Fato, ao fazê-lo, pratica a mesma operação que Altamiro Borges corretamente critica na própria edição especial, só que inverte o sinal: o Brasil de Fato se torna um palanque para a Dilma, precisamente como a “grande mídia” é um palanque de Serra. Pior ainda: ao considerar legítima e merecedora de publicação apenas uma determinada posição, descartando liminarmente todas as outras que existem no interior do Conselho Editorial, o jornal passa a impressão pública (exposta em 2 milhões de exemplares) de que há uma unanimidade no interior do conselho: trata-se de uma prática sórdida e bem conhecida, consagrada na época que um certo Josef comandava o regime de terror na URSS.

Diante disso, minha posição na Conselho Editorial se torna insustentável. Sei que ocorreu algo semelhante em 2006, mas voltei a integrar o jornal, na época, por considerar que o MST era muito maior, muito mais importante, muito mais vital do que eventuais divergências. Só que a situação agora é qualitativamente nova. O jornal Brasil de Fato transformou-se num planfletão lulista, e isso marca – na minha opinião, obviamente - reflexo de um processo de desmantelamento histórico do MST e de ruptura de uma boa parte da esquerda com sua própria história e princípios éticos. Trata-se de uma debandada tão grande e imunda que permite, entre outras coisas, que lideranças da “esquerda” declarem sem ruborizar o seu apoio ao agronegócio, à aliança com os neocompanheiros José Sarney e Michel Temer e o acobertamento cúmplice e conivente de manobras sórdidas nos corredores palacianos.

Já abordei várias vezes esse tema em reunião do Conselho Editorial e nunca fui levado suficientemente a sério. O MST, que era – sempre na minha opinião – o último grande bastião de resistência à cooptação oficial, está claramente sendo triturado pela máquina do Estado terrorista brasileiro, agora operada pelo lulismo. E tudo em nome do... “combate à direita”! A frase “Dilma não é o governo dos nossos sonhos, mas Serra é o governo de nossos pesadelos”, que consagra a posição editorial assumida pelo jornal, pode ser um bom achado de marketing, um ótimo recurso de oratória, uma bela saída para escapar de um dilema político. Mas se o critério for a boa oratória, que se convoque então Carlos Lacerda. Ele tem ótimas lições a dar nesse campo.

Não vou ser cúmplice disso. Nesse mesmo sentido – e embora não seja essa lista o palco para esse debate – coloco em questão a legitimidade de minha permanência à frente da Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes (e por isso envio esta carta com cópia à diretoria da AAENFF, a quem peço que remete ao conjunto de seus associados). Encaminho também a algumas outras listas, para que se marque publicamente a minha ruptura com esse trágico desfecho.

Aos vencedores, as batatas.

Abs

jose arbex

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 é “de esquerda”?



Diego Cruz
da redação do SITE do PSTU

Amparado por um mega-esquema de distribuição e publicidade, a seqüência do filme Tropa de Elite cravou um recorde no cinema brasileiro ao levar mais de 2,6 milhões de espectadores em seus primeiros dias de exibição. A superprodução traz de volta o personagem que se tornou parte do pop nacional, o protagonista Capitão Nascimento, interpretado com espantoso realismo por Wagner Moura.

Tropa de Elite 2 vem sendo apontado como uma profunda inflexão em relação ao primeiro longa. O próprio título já anuncia tal mudança: “Agora, o inimigo é outro”. E, de fato, nesse filme o foco se altera. Embora ainda vejamos a história sob os olhos e a perspectiva do capitão do Bope, agora a câmera desvia dos traficantes dos morros cariocas para a própria polícia. Mas seria um filme “progressivo”, como muitos vem apontando?

Milícias
Logo de cara, o filme começa com o agora Coronel Nascimento, mais velho, comandando uma ação do Bope para acabar com uma rebelião de presos em Bangu I, desatada por uma briga entre facções rivais. Após deixar uma quadrilha praticamente trucidar a outra, Nascimento pede autorização ao governador do Rio para permitir que seus homens invadam o presídio e “termine o serviço”, ou seja, aproveitar a oportunidade para eliminar alguns dos líderes do tráfico.

Temendo um banho de sangue e uma repercussão negativa na imprensa, o governador resolve atender a exigência de um dos traficantes, interpretado por Seu Jorge, e manda o ativista de direitos humanos, Diogo Fraga, (muito bem interpretado por Irandhir Santos) a fim de tentar dialogar com os presos. O ativista é o alterego do atual Deputado Estadual do PSOL, Marcelo Freixo. Embora Fraga consiga controlar a rebelião, o Bope invade o presídio e acaba matando o líder da rebelião.

A ação atabalhoada do Bope e a morte de vários presos causam comoção na imprensa e Nascimento é afastado do comando do batalhão. Mas, temendo contrariar alguns setores da classe média que vêem o capitão como um herói, Nascimento não é rebaixado, mas promovido a subsecretário de Segurança Pública.

E é nesse ambiente dos gabinetes que se passa boa parte da história. Nascimento usa seu prestígio para aumentar e equipar o Bope, transformando o batalhão em uma “máquina de guerra”. A repressão acaba com o domínio do tráfico nos morros, mas abre espaço para um outro tipo de crime organizado. E é aí que aparecem as milícias que, na ausência dos grandes traficantes, acabam dominando as comunidades, através de métodos típicos de gangues, e protegidos por uma série de políticos com o próprio governador à frente.

A partir daí, o ex-comandante do Bope se envolve numa luta cujos inimigos não são mais descamisados empunhando fuzis nos morros, mas políticos engravatados nos gabinetes. Fraga, antes visto com desconfiança por Nascimento (que insiste em chamá –lo de “intelectualzinho de esquerda”), torna-se o seu único aliado nessa briga. O maior mérito do filme é, sob essa nova perspectiva, expor as relações entre a polícia corrupta e os políticos (ou o “sistema”, como diz Nascimento). E tem também, compondo essa tríade bizarra, o apresentador fascistóide do jornal sensacionalista na TV, que em frente às câmeras prega o extermínio dos bandidos, mas que por detrás delas apoia a milícia e se elege deputado por meio delas.

Tropa de Elite e o “sistema”
É inegável que esse segundo Tropa de Elite é bem mais complexo que o tosco maniqueísmo pintado no primeiro filme. Mas até onde vai a mudança de foco sugerida pelo diretor? Ele rompe de fato com o ranço fascista do primeiro filme?

Acusar José Padilha de direitista não seria justo, haja visto filmes como Ônibus 174 e o documentário Garapa, sobre a fome. Por outro lado, apesar de inúmeras declarações contrárias do próprio Padilha, não dá para ignorar que Tropa de Elite, o primeiro, flerta sim com o fascismo. A escolha do narrador e, conseqüentemente, da perspectiva pelo qual vamos acompanhar a história, não é algo neutro. Assim, Padilha decidiu contá-la através dos olhos de um policial, para quem a tortura e o assassinato a sangue frio são plenamente justificáveis. Para quem a culpa do tráfico é do usuário de drogas, supostamente responsável por manter e financiar o crime.

Os reflexos do filme na sociedade tornam difícil refutar essa ideia. Os policiais do Bope, romantizados e glamourizados pelo filme, tornaram-se estrelas, a ponto de serem aplaudidos em Ipanema. O caveirão, que invade as favelas e aterrorizam a população, acabou se tornando brinquedo de criança. No cinema, cada tiro é comemorado, por vezes de forma efusiva, pelos espectadores. Será que ninguém foi esperto o suficiente para entender as reais intenções do filme, como quis se justificar Padilha? É difícil de engolir.

Já Tropa de Elite 2, constitui uma contundente denúncia contra as milícias e suas ramificações, chegando até certo ponto a questionar o próprio caráter da polícia (nesse sentido, a fala final de Nascimento durante a CPI das milícias não deixa de ser surpreendente). Porém, ele não rompe com os pressupostos do primeiro filme. Fica implícito que o tal “sistema” tão denunciado por Nascimento limita-se à banda podre da polícia e suas extensões parlamentares. Pode-se dizer, assim, que o que Padilha fez, grosso modo, foi aglutinar o discurso da ética na política ao bangue bangue rasteiro de seu filme anterior.

Desse ponto de vista, não basta ser “faca na caveira”. Tem que também ser “ficha limpa”.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Chile: entre a fênix e os abutres Governo e imprensa transformam resgate de mineiros em espetáculo para alavancar popularidade do presidente.

cena do filme


• No filme “A montanha dos sete abutres” (Ace in the Hole, 1951) um repórter decadente presencia um acidente no Novo México. Um homem fica preso em uma antiga mina abandonada, dentro de uma montanha. O repórter percebe a oportunidade e transforma a operação de resgate em um espetáculo nacional. E, para manter a legião de curiosos e jornalistas no meio do deserto, chega a alterar a operação de salvamento, escolhendo o caminho mais demorado e arriscado.

A comparação com o espetáculo na mina San Jose, no deserto do Atacama é mais do que óbvia. Mais de 500 jornalistas desembarcaram no deserto chileno. Os visitantes transformaram a paisagem inóspita em palco de um show inédito, transmitido ao vivo para todo o mundo, onde milhares de pessoas se emocionaram com os resgates e comemoraram o desfecho, a luta e a travessia destes homens de volta à vida e para os seus.

Do lado de lá, cada um dos mineiros teve a vida vasculhada e, ao longo dos 69 dias, catapultados à condição de celebridades. A ponto de Mario Sepulveda, o mais entusiasmado dos mineiros e o segundo a escapar pelo túnel, desabafar: “não nos tratem como artistas, somos mineiros”. Contraditoriamente, foi justamente ele, com pulos e socos no ar, um dos que atraiu mais a atenção dos jornalistas.

No filme, o personagem vivido por Kirk Douglas enxerga em um drama pessoal, as condições para transformar a sua carreira e ascender profissionalmente. No controle de uma história impressionante, sem qualquer ética, ele retorna ao “primeiro time” da imprensa. No caso chileno, o drama dos mineiros ajudou a vender jornais, muitos tentam controlar suas histórias. E não apenas na imprensa.

Abutres

Era nítido que uma história dessas proporções, com tanto apelo popular, teria conseqüências. O calvário dos homens e de suas famílias poderia se transformar em um grande trunfo para os governantes, caso o resgate tivesse sucesso, como felizmente ocorreu.

O presidente Sebastián Piñera, em seu primeiro ano de mandato, após derrotar o candidato de Michelle Bachelet, deslocou ministros e gastou milhares de dólares na operação com a perfuradora T-130, que alcançou o refúgio onde estavam os mineiros e abriu o túnel a ser percorrido pela cápsula Fênix, que contou até com a ajuda da Nasa.

O presidente explorou ao máximo o feito chileno, uma conquista diante dos 600 metros sob a terra, que pareciam intransponíveis. Sebastián Piñera deu centenas de entrevistas, foi fotografado e cumprimentou cada um dos mineiros, entrevistando longamente o líder deles, o último a sair.

Como se conduzisse um programa de TV, foi filmado ao extremo, inclusive recebendo por telefone os cumprimentos de outros governantes, de Lula a Hugo Chávez.

Também surgiu ao lado do presidente Evo Morales, que não deixou de comparecer, já que o quarto mineiro a ser salvo, Carlos Mamami, é boliviano e estava em sua primeira semana de trabalho quando o acidente ocorreu. Evo pretendia levá-lo consigo e desembarcar juntos em La Paz, mas as condições de saúde do mineiro não permitiram. Mesmo sem o troféu, a viagem de Evo ajudou a contornar o princípio de crise aberta em seu país com as críticas duras feitas pela esposa do operário, que inicialmente havia acusado o governo boliviano de omissão.

Além dos líderes do continente, o presidente chileno recebeu mensagens de todo o mundo, incluindo uma declaração do presidente Barack Obama, direto dos jardins da Casa Branca. A repercussão internacional, o prestígio, animou Piñera a tal ponto dele enxergar um “novo Chile” após o resgate. “O Chile não será o mesmo após o dia de hoje”, afirmou.

Guardadas as proporções, o desfecho teve significado semelhante ao do 11 de Setembro do EUA ou de uma conquista de Copa do Mundo na política interna do Chile. Do alto dos escombros, sob os holofotes, Piñera falou de união e superação. O presidente conservador navega no orgulho e na felicidade de todos os chilenos diante do grande feito das equipes de resgate e engenharia, para catapultar a sua aprovação e popularidade, embalado ainda pelas comemorações dos 200 anos do país.

Sob a poeira

Toda a merecida alegria ameaça ocultar os responsáveis pelo acidente e pela tragédia que foi por pouco evitada. A começar pelos próprios governantes, que protagonizaram o espetáculo nas TVs. O ministro da Mineração, Laurence Golborne, é um dos tidos como “heróis” após o resgate. Em uma pesquisa divulgada pela Universidade Central do Chile no dia 11, às vésperas do resgate, Golborne era apontado por 31% dos entrevistados como o personagem principal do processo de resgate, atrás apenas dos próprios mineiros e à frente até mesmo do presidente Piñera, com 9%.

Um reconhecimento que ofusca a culpa do ministro nas causas do acidente. A mina San Jose é marcada por acidentes, e, em 2008, após a morte de três trabalhadores, foi fechada. Sem que ela garantisse as condições de segurança necessárias, seus donos receberam a autorização para a reabertura da mina, no final de 2009. A autorização foi concedida pelo Serviço Nacional de Geologia e Mineração (Sernageomin), subordinado ao governo do Chile e ao ministro.

Todos os protestos dos sindicatos, que exigiam o fechamento da mina, foram ignorados. Até mesmo um grave acidente duas semanas antes, onde uma trabalhadora perdeu uma perna, não serviu para sensibilizar as autoridades. As mesmas que agora surgem diante das câmeras, explorando o alívio das famílias e exaltando um “novo Chile”.

Em nome do lucro

Mais do que a responsabilidade de governantes ou dos donos da mina, é necessário destacar a cruel engrenagem que faz com que tantas vidas se percam. Apenas neste ano, 31 mineiros morreram no Chile, em 28 acidentes.

A desgraça dos mineiros em nosso continente, nas minas da Bolívia ou do Chile, já despertou a revolta de escritores e de revolucionários, como o jovem Che Guevara. O que se esconde agora é que, em nome do crescimento econômico e do lucro das empresas, as veias de nosso continente continuam abertas e todas as condições mínimas de segurança e de condições de trabalho são ignoradas. Só isso é o que pode explicar que acidentes assim se repitam com tanta freqüência na mineração, seja nas minas de cobre do Chile, ou nas de ferro da Vale, no Brasil. Repetindo o que ocorre nas minas de carvão da China, onde mais de 2.600 mil trabalhadores morreram enterrados em minas no ano passado, em uma estimativa oficial, questionada por representantes dos trabalhadores.

Após o auge da crise econômica mundial, essa situação parece piorar ainda mais em todas as economias. Para recuperar os níveis das taxas de lucros anteriores, as empresas aumentam o ritmo e as metas de trabalho, provocando doenças de todo tipo; ignoram normas de segurança, e aumentam a terceirização, sem oferecer treinamento ou se responsabilizar por estes trabalhadores. No Chile, sob o Atacama, os 33 mineiros presos trabalhavam em quatro empresas diferentes. Ao todo, cerca de 23% dos mineiros do país são terceirizados.

Essa é a verdadeira explicação para que acidentes como esse ainda ocorram. Para o capitalismo, mais do que a natureza, mais do que a vida, o que importa é o lucro. No Atacama, a tecnologia e o esforço dos trabalhadores chilenos nos deram uma grande alegria, evitando uma tragédia. Mas isso não altera, infelizmente, a regra: o capitalismo mata. Para que novas vidas não se percam, é preciso enterrar esse sistema.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

SE ELA NÃO VAI EU VOU

Por Redação Yahoo! Brasil


PUBLICIDADE

Yonny Barrios, o 21º trabalhador a ser resgatado da mina San José, foi recebido de braços abertos pela amante, Susana Valenzuela. Como prometido antes, sua esposa, Marta Salinas com quem é casado há 28 anos, não compareceu ao resgate, no Chile, transmitido ao vivo pela televisão.





Apático, provavelmente cansado pelo confinamento, Barrios cumprimentou os socorristas assim que saiu da cápsula Fênix II. Em seguida, correspondeu aos abraços de Susana sem demonstrar entusiasmo. Mas ela, sorrindo, abraçou e beijou o amante inúmeras vezes por cerca de um minuto. Até o mineiro ser colocado na maca pelos médicos e encaminhado para o hospital.


Marta Salinas, esposa do mineiro, conheceu Susana Valenzuela no acampamento "Esperanza", em Copiapó, Chile, quando ambas choravam pelo mesmo homem. De acordo com matéria publicada no jornal argentino Clarín, Barrios chamou as duas para recebê-lo. Porém, Marta disse que só iria se "a outra" não estivesse presente.

Franceses voltam às ruas contra reforma da Previdência de Sarkozy - Mobilizações crescem e recebem o apoio dos estudantes

Da redação do site do PSTU



• Os trabalhadores franceses não aceitarão a reforma da Previdência sem luta. Foi esse o recado dado nas ruas pelos 3,5 milhões de pessoas que se mobilizaram nesse dia 12 de outubro, na maior manifestação já realizada contra o governo Sarkozy. A jornada de mobilizações e greve geral superou o do dia 23 de setembro, quando 3 milhões saíram às ruas, segundo os sindicatos.

As 244 manifestações ocorridas em todo o país exigiam o fim da reforma da Previdência do governo francês, que se mantém irredutível com os ataques. A mobilização, porém, vem crescendo a cada dia. Ao mesmo tempo em que mais franceses saem às ruas contra o projeto, cada vez mais setores também aderem às paralisações.



A reforma da Previdência de Sarkozy atrasa o tempo mínimo para as aposentadorias dos atuais 60 para 62 anos. Para quem não tiver completado os 40 anos mínimos de contribuição (que o governo quer aumentar para 41), a aposentadoria só será possível a partir dos 67 anos (hoje essa idade é de 65). Com a crise econômica e o conseqüente aumento do desemprego e da informalidade, os sindicatos denunciam que, na prática, a idade mínima para a aposentadoria vai ser de 67 anos.

Embora o governo Sarkozy coloque a elevação da estimativa de vida dos franceses como motivo para a reforma, o ataque faz parte de um pacote fiscal para conter o déficit público. A série de pacotes de estímulos concedidos pelos governos ao setor financeiro nos dois últimos anos colocou os países, principalmente da Europa, à beira da bancarrota. Agora, esses governos querem que os trabalhadores paguem pela crise.

Juventude entra em cena

As mobilizações, porém, colocam o projeto de Sarkozy em perigo. A jornada de lutas desse dia 12 contou também com o protagonismo da juventude francesa, com milhares de estudantes marchando lado a lado com os trabalhadores. A participação estudantil assustou o governo, que atacou a esquerda e os sindicatos como “irresponsáveis” por receber o apoio estudantil. O temor não é por menos. Em 2005 a juventude do país foi às ruas e derrubou a famigerada Lei do Primeiro Emprego (CPE na sigla em francês), que flexibilizava as contratações dos jovens.



A reforma da Previdência já foi aprovada pelos deputados e tramita agora no Senado. Espera-se que a votação ocorra ainda nesta semana. A disposição de luta dos trabalhadores franceses, porém, indica não arrefecer. No dia seguinte à greve geral, setores como transportes e as refirnarias permaneceram paralisados. E os sindicatos prometeream um nova jornada de greve e manifestações já para o próximo dia 16, sábado.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

REVOLUCIONÁRIOS: SIM - DE ESQUERDA: SIM - COMUNISTAS: SIM - TROTSKYSTAS: SIM

Extráido do blog CATALÃO-ESQUERDA (http://pstucatalao.zip.net).



A vida de um militante revolucionário não é fácil, não é uma vida de grandes prazeres e bajulações, pelo contrário, em muitos momentos é uma vida de sacrifícios, sacrifícios por aquilo que acredita, pelo próximo, pelo irmão necessitado.

Fazer política para nós não é cair nos braços da corrupção ou se corromper com ela, pelo contrário, é lutar contra ela e levar a política no sentido mais sério o possível, o desejo de uma sociedade melhor e mais justa, que acreditamos que so pode ser encontrada no socialismo.



Não nos importamos com as piadinhas ridículas dos alienados, pelo contrário, elas so demonstra a sua falta de conhecimento e o tamanho do "veu alienador que cobre o teu rosto". Revolução não acontece de um dia para o outro, pelo contrário, é um processo de construção que pode levar anos, temos consciencia de onde estamos e onde queremos chegar e sabemos que no Brasil nesse momento existe apenas um processo revolucionário a ser contruido, ao contrário de países mais avançados como Venezuela e Equador, que ainda não chegaram ao socialismo, mas onde a consciencia de classe é maior.

O PSTU é um partido em construção, mas já é uma referencia, já somos muito fortes em cidades como São Paulo, regiões do Nordeste entre outras, a CONLUTAS, entidade sindical que apoiamos e defendemos já é uma grande realidade e tem um peso enorme no movimento sindical, estamos nos fortalecendo.


Seguimos sim, um modelo Bolchevique de Partido, defendemos sim a linha leninista de partido, através dos ensinamentos de Trotsky, que nada mais fez do que defender o que Lenin defendia e que Stalin corrompeu. No nosso partido não temos privilegiados, temos sim uma corrente onde todos tem que ter o seu compromisso e se não segui-lo está fora da organização, seguimos sim uma Moral Revolucionário.



Quaquer militante que maltrate sua esposa e que tem atitudes machistas é expulso do partido, qualquer militante que tem atitudes racistas é expulso do partido e so pode fazer parte deles aquele que realmente demonstre interesse de fazer mas que tambem demonstre atitudes diante da sociedade, temos sim que dar exemplo e o que não der exemplo está fora.

Em nosso partido não se recebe para fazer parte dele, pelo contrário, se paga, se cotiza, porque quem finacia esse partido são e apenas são os seus militantes, porque não recebemos e não aceitamos receber dinheiro dos grandes empresários, o quais lutamos contra, pois defedemos 100% a classe trabalhadora, os setores mais pobres e excludos e a construção do socialismo como sociedade mais justa.


A FELICIDADE DE UM REVOLUCIONÁRIO ESTÁ EM PARTICIPAR DA LUTA POR UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA.

sábado, 9 de outubro de 2010

Togas e TV contra a democracia Uma breve análise da atuação do TSE nas eleições de 2010

Pedro Tierra, de Brasília



• Estas breves linhas são escritas na penumbra entre a última sessão de julgamento do TSE, depois de passar dois meses em Brasília e, antes do dia da eleição.

Mesmo enquanto advogado nunca tive ilusões na Justiça Eleitoral, que é parte da superestrutura da Justiça Burguesa. Tal “justiça” não reflete a correlação de forças da sociedade. Ainda que em algumas ocasiões reflita sobre ela, o seu centro é, sem dúvidas, a defesa dos interesses da burguesia.



O que nos impressiona é o fato de que, mesmo sob esse prisma, esperávamos ao menos as garantias mínimas das conquistas democráticas, indispensáveis à democracia burguesa num processo eleitoral. Ainda mais nessas eleições particularmente.

Está eleição foi propagandeada pela mídia como sendo marcada pela “Ficha Limpa”. Mas na verdade é marcada por uma profunda perseguição aos pequenos partidos e manutenção do “status quo” dos grandes partidos que sustentam o regime.

Sob a lógica aristotélica de que “na democracia temos que tratar com desigualdade os desiguais”, crimes contra a democracia foram cometidos.

O filósofo grego, pelo menos nesta diretriz, pensava que os que tinham menos teriam que receber mais, em uma verdadeira democracia, para se equipararem àqueles que têm mais. Ou seja, os despossuídos teriam que ser agraciados com uma fatia maior de prerrogativas para acabar com a desigualdade que os afastava dos possuidores e poderem competir de igual para igual.

Os Tribunais Superiores brasileiros inverteram esta lógica ao dar “mais a quem já tem muito e menos a quem tem pouco”. Para eles os grandes partidos e os candidatos majoritários “são notícia” interessam mais e, portanto, têm que aparecer mais nos meios de comunicação, do que os pequenos, afinal “ninguém se interessa por eles”.

Esta dicotomia do regime ficou clara quando o STF terminou sua sessão em impasse e indecisão, com a votação empatada, com relação ao julgamento do ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz, não o impugnando.


Um exemplo emblemático foi o menos comentado. O então deputado Roriz que foi condenado por abuso de poder econômico nas eleições de 2006, mas não perdeu o mandato de deputado. Sua “condenação” era a três anos de inelegibilidade, mas ocorre que as eleições são a cada quatro anos. Pela “Ficha Limpa” ele não poderia se candidatar por 8 anos, mas o TSE entendeu que ele teria já cumprido sua “pena”. Ora, ele não sofreu pena nenhuma, ele abusou do poder econômico, mas não perdeu o mandato, e agora concorre à reeleição.

Outros casos em que chegou haver até mesmo a condenação pelo TSE em processos anteriores, como Ronaldo Lessa (AL), Roseana Sarney (MA) e Jackson Lagos (MA)foram liberados da “ficha limpa”. A Lei da Ficha Limpa não limpa tão limpo quanto diz a TV.

Por outro lado, dezenas de candidaturas foram impugnadas pelos motivos mínimos e os mais burocráticos possíveis.

Por exemplo: por não se ter pago a multa de R$3,50 pelo não comparecimento às urnas na eleição anterior. Ainda que essa multa fosse paga depois.

Ou por que a justiça eleitoral diz que o candidato não é filiado ao partido, quando isso é assunto interno do partido, “interna corporis”.

Com isso foi banalizada a impugnação de candidaturas dos pequenos partidos fundamentalmente com uma política mais socializante, enquanto conhecidos magnatas corruptos e corruptores impunemente puderam concorrer às eleições.

Garantindo a injustiça
Se houve impasse e indecisão com relação às candidaturas “fichas sujas”, indecisão não bastou ao Tribunal para impedir que os partidos sem representação parlamentar não participassem dos debates televisivos. Sendo que nunca a lei proibiu, ao contrário, sempre facultou tal presença.

Decisão e casuísmo não faltaram quando, contra a resolução formada por eles, votaram que estes candidatos não poderiam, sequer, discutir as regras dos referidos debates.

Na Justiça Eleitoral, a divisão de Poderes foi suprimida. Na prática, o TSE edita resoluções que valem como se fossem Leis. Pior ainda, quando convém respondem a Consultas, e simplesmente mudam o entendimento que tinham tido antes. Ou seja, as típicas funções de legislar, interpretar a lei e julgar, todas se concentram nesta Corte. Os símbolos falam muito, usando suas tradicionais togas, e com todas as simbologias de Poder, o Judiciário fica cada vez mais distante da população.

O Ministro Cezar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal, deixou isso muito latente no julgamento da Ficha Limpa, quando falou que não atenderia a nenhum clamor popular.

Desigualdade na TV



Dentro de uma estrutura que só favorece a quem já está no poder, a burguesia força cada vez mais um bipartidarismo. O Judiciário torna-se totalmente omisso quanto aos abusos da imprensa. A Lei distribui o tempo no horário eleitoral já de forma injusta.

Torna-se impressionante a distribuição do tempo de cobertura por parte das emissoras de TV. Nesta cobertura, Marina teve o percentual de exposição simplesmente triplicado, e Serra ganhou quase 10% a mais no tempo. E o PSTU simplesmente foi censurado. Isto configurou um abuso do poder econômico, e o TSE mesmo provocado não respondeu.

O caso mais absurdo foi o julgamento de direito de resposta do último programa do PSTU. O TSE impugnou vários candidatos deste partido por perda de prazo em entrega de documentos ou em prestação de contas. Atrasos de dois minutos não foram tolerados. Mas o Ministro que julgou o direito de resposta do PSDB contra o PSTU, e tinha 72 horas para responder, atrasou por semanas sua decisão, e nas vésperas da eleição, deu este direito ao PSDB. De modo que não houve mais tempo hábil para que a decisão fosse ao plenário.

O PSTU foi censurado por dizer que PSDB de Serra apoiou o corrupto Arruda. Como se não fosse público que os tucanos pretendiam tê-lo como candidato a vice-presidente.

Não há neutralidade na justiça burguesa e na justiça eleitoral, servem à sua classe. Por isso os órgãos do judiciário têm que ter controle popular.
Para que haja uma democracia, as minorias e oposições têm que ter a liberdade de manifestação, isto é indispensável no debate político e eleitoral, e inclusive na cobertura jornalística. Só teremos democracia nas eleições quando houver liberdade das informações e o controle dos trabalhadores sobre a Justiça. Sem isto a democracia é uma formalidade hipócrita.

[ 8/10/2010 14:57:00 ]

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Donos de bancos desrespeitam a população e os trabalhadores



Do Jornal Vias de Fato


Os bancários em greve todo o Brasil responsabilizam os banqueiros e o Governo Federal pela paralisação que se arrasta por mais de uma semana. Em cinco rodadas de negociações os donos de bancos recusaram todas as propostas dos trabalhadores. Isto, apesar de uma lucratividade bilionária que os bancos do país tiveram nos últimos anos. A paralisação pressiona por nova negociação e propostas da Fenaban (federação Nacional dos Bancos) e do Governo Federal, responsável pelos bancos públicos.

No dia 11/08, a pauta de reivindicações foi entregue à Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). De lá para cá tiveram cinco rodadas de negociação. Em uma delas, dia 14/09, os bancos assumiram o compromisso de apresentar uma proposta completa na reunião seguinte, dia 22/09. Entretanto, o índice oferecido de apenas 4.29%, foi considerado vergonhoso pelos bancários de todo país, pois não repõe a inflação acumulada de 01/09/09 a 31/08/10, medida pelo DIEESE que ficou em 5.15%; muito menos considera as perdas salariais dos bancários, acumuladas desde 1994, que ultrapassam 23% nos bancos particulares e 80% nos públicos.

O lucro dos bancos no primeiro semestre/2010 cresceu, em média, 32% em relação ao ano passado. Isto equivale dizer que, a cada três anos uma instituição financeira tem capital para comprar outra do mesmo porte.

Os prejuízos com a falta de atendimento à população são parte da luta dos trabalhadores para trazer benefícios aos clientes e usuários. Na pauta de reivindicação dos grevistas, mais contratação de bancários para atender melhor a população, o respeito à lei das filas e o fim das altas taxas e tarifas que engordam, e muito, o lucro dos bancos. Se a categoria não parar para protestar contra esse desrespeito aos trabalhadores e a população, os patrões continuarão ignorando as péssimas condições de trabalho dos bancários e o péssimo atendimento aos clientes e usuários.

Este movimento de greve é importante para pressionar os banqueiros a apresentarem uma proposta descente aos trabalhadores, e, dessa forma, causar menos transtornos aos bancários e a população em geral. Hoje, estará sendo feita uma passeata no centro de São Luís. A concentração acontece a partir das 15h30min na Praça João Lisboa.


Com informações do Sindicato dos Bancários do Maranhão

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Voto contra a direita no segundo turno é voto nulo

No segundo Turno

Direção Nacional do PSTU


• No segundo turno das eleições vão se enfrentar Dilma e Serra. Vai haver uma pressão grande entre os trabalhadores no sentido de votar em Dilma “para evitar a volta da direita”.

O PSTU tem total acordo com a luta contra a oposição de direita. Somos radicalmente contra a volta da turma do FHC. No primeiro turno, o PSTU teve seu programa final cassado pela justiça a pedido do PSDB. Isso ocorreu por termos mostrado que Serra- que atacava Dilma por corrupção- também tinha o rabo preso, por ter apoiado o ex-governador Arruda de Brasília. Isso foi parte de nossa batalha contra a oposição de direita, que ocorreu em todo o primeiro turno.

Mas lutar contra a direita não significa votar em Dilma Roussef. A direita não é representada nessa campanha só por Serra. Direita e esquerda são termos relativos, mas em geral a direita representa a grande burguesia. E hoje, no Brasil, as grandes empresas estão divididas. Um setor apóia Serra, o que é mais que evidente nas empresas de TV e jornal. Outro setor, que inclui uma parte dos banqueiros (talvez a maioria), as multinacionais, os governos imperialistas, apóia política e financeiramente as duas campanhas, com um leve pendor para Dilma.

Não é por acaso que a candidatura de Dilma arrecadou bem mais que a de Serra junto às grandes empresas. Não é por acaso o apoio dos governos imperialistas para marcar aqui as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Tampouco foi um acaso que a cotação do dólar se manteve estável nas eleições, chegando a baixar um recorde inferior a 1,6 reais.

Temos duas candidaturas em defesa do grande capital nas eleições, duas candidaturas de direita. Votar por Dilma ou por Serra é votar na manutenção do plano econômico neoliberal aplicado por FHC e continuado por Lula. É votar contra a reforma agrária que foi bloqueada por FHC e também por Lula. É votar na ocupação militar do Haiti defendida por Dilma e Serra.

Qualquer um dos dois vai atacar os trabalhadores duramente quando a crise econômica internacional voltar a se abater sobre o Brasil. Tanto um como outro já anunciaram sua disposição de mudar a previdência, atacando mais ainda os aposentados. Pense nisso: cada voto em Dilma no segundo turno é uma força a mais para uma nova reforma da previdência. Uma votação em Serra teria a mesma conseqüência.

Votar em Serra seria votar junto com FHC, Cesar Maia, Yeda Crusius, velhas figuras da direita desse país. Votar em Dilma seria votar junto com Maluf, Collor, Sarney, Jader Barbalho, outras figuras da mesma direita.

Por esses motivos, votar contra a direita nesse segundo turno é votar nulo. Chamamos os trabalhadores e jovens que nos acompanham a seguir votando em nossa legenda 16, que agora vai significar um voto nulo.

Direção Nacional do PSTU

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

EM MEIO AO BANDITISMO DAS ELEIÇÕES BURGUESAS SOBREVIVE A LUTA



Escrito por Hertz Dias - Militante do PSTU

Em uma das eleições mais disputadas de sua história o Maranhão acordou em silêncio. Essa situação contrasta com a reação popular ocorrida após o resultado das eleições de 2006 quando Jackson Lago (PDT) venceu a candidata Roseana Sarney (PMDB). São Luís, naquela ocasião, virou a noite em claro em comemoração a sua suposta libertação do julgo de quarenta anos da oligarquia Sarney no Maranhão. Muita gente, da plebe e da classe média, sentia-se como ex-escravos que se aquilombavam após enroscar no pescoço do seu senhor as correntes que os aprisionavam. É claro que Jackson Lago não era um dos nossos, não era um quilombola visto que em seu primeiro ano de governo resolveu mostrar logo sua verdadeira face, a de feitor.

Jackson Lago governou contra os trabalhadores e a favor do agronegócio e isso, evidentemente, imprimiu um ceticismo muito grande naqueles que alentaram ver um governo que se diferenciasse minimamente da forma familocráta de governar do grupo Sarney. Jackson Lago pagou um preço alto, refletido no resultado dessas eleições, não só por ter enfrentado os sarney’s, mas por ter atacado os trabalhadores em seus dois anos de governo. É certo que na cassação de Jackson teve a mão de Sarney e a conivência de Lula.

No entanto segue a pergunta: por que tanto silêncio e apatia após uma vitória tão apertada de Roseana Sarney numa eleição transcorrida em um clima de suspense digno de roteiro de filmes hollywoodiano com ameaça de impugnação de candidaturas, queda de helicóptero, dois comícios (de Jackson e Roseana) marcados para o mesmo local e horário no último dia de campanha, internação de José Sarney com arritmia cardíaca, e tantos outros fatos que apimentavam ainda mais a disputa pela sucessão do governo do Maranhão?

Para nós há uma resposta, dentre outras possíveis, digna dessa pergunta: o motor político dessas eleições foi o poderio econômico. A população não se mobilizou, foi mobilizada pelo dinheiro da democracia burguesa. Milhares de mulheres, idosos e jovens tremulavam bandeiras de candidatos, raramente de partidos, nas avenidas, rotatórias, praias, etc, com a mesma apatia que presenciamos hoje no rosto da maioria dos populares com o resultado das eleições, poucos foguetes foram estourados na noite passada.

Muitos estavam mais preocupados com seus “ganha pão” do que com a eleição de seu patrão-candidato, aliás, o fim das eleições representou para muitos o fim de um emprego temporário, por isso estão apáticos. Um segundo turno seria mais interessante para os mesmos, seria prorrogação por mais algumas semanas de um tipo de trabalho que em média representa mais de 3 meses de bolsa família num estado com cerca de 3 milhões de pessoas sobrevivendo abaixo da linha de pobreza. As eleições no Maranhão, e certamente no restante do país, mostrou que a democracia burguesa é mesmo uma grande ditadura dos negócios capitalistas em razão das necessidades extremas dos mais pobres.

A população do Maranhão se viu coagida pelos sarney’s e chantageada por Lula do PT. Os programas eleitorais da coligação PT/PMDB eram verdadeiras cenas de assédio moral. A população foi levada a crer que se Edson Lobão, João Alberto e Roseana Sarney não fossem eleitos não teríamos termoelétrica, exploração de gás-natural, refinaria de petróleo e nenhum dos demais mega-projetos que aqui se instalarão em razão das riquezas de nossos recursos naturais e da força de trabalho barata que temos disponível.

Nos programas desses candidatos Lula e Dilma faziam exigências no nível daquelas feitas pelos seqüestradores aos parentes dos reféns. O PT mais do que nunca se associou ao banditismo político. Desta maneira até um poste sem luz seria eleito, se indicados por eles. O PC do B de Flávio e o PDT de Jackson Lago calaram-se diante dessa barbárie para não perder votos e por que são parte do projeto que a Frente Popular tem para o Brasil, o do capital. Mesmo os candidatos da chamada esquerda do PT foram eleitos dentro desse esquema, assim com favoreceram também a reeleição dos sarneys.
Em razão disso não dar pra comparar, por exemplo, os 21.944 votos de Claudicéa Durans e os 17.818 de Luis Carlos Noleto, ambos do PSTU com os 1.702.085 de Edson Lobão e os 1.546.298 João Alberto do PMDB. Em termos quantitativos realmente não dar. Mas se levarmos em consideração que quase 40 mil pessoas votaram nesses candidatos que se quer tinha panfletos, tempo na televisão nem muito menos dinheiro pra fazer suas campanhas, esse sim é um fato digno de comemoração, especialmente por suas coragens, em nome de princípios classistas, de denunciar e desmascarar os candidatos da burguesia em seu próprio campo que é o das eleições. Foram 40 mil votos contra a estrutura da democracia burguesa e da cidadania dos negócios.
O PSTU gastou menos de 20 mil reais nessa campanha enquanto Roseana declarou gastar cerca de 20 milhões de reais fora os não declarados. Enquanto os modestos recursos do PSTU era para gastar com material de campanha, os de Roseana era principalmente para “comprar votos”. Faça as contas levando em conta os 1.459.792 votos que ela obteve nessas eleições e verás que cada voto do grupo Sarney custou em média 30 reais, sem contar o aparato midiático que eles tem a seu favor. Os votos no PSTU não foram comprados e nem somente conquistados, foi resultado do encontro da classe com a sua própria consciência.

Marcos Silva (PSTU) obteve mais de 10 mil votos só em São Luís, tudo isso nas mesmas condições acima descrita e sobre a pressão do chamado “voto útil” em Jackson Lago ou Flávio Dino. A esquerda socialista e todos (as) aqueles (as) que acreditaram em nossos programas tem motivos de sobra para comemorar. O resultado dessas eleições só reafirma nossas convicções de que o socialismo é a via necessária para a libertação da classe trabalhadora e as lutas sociais o campo privilegiado para a sua edificação. Um setor a mais da nossa classe encontrou-se consigo mesmo nesse processo eleitoral e se reencontrará conosco nas lutas que nos esperam mais a frente.

Com muito orgulho reafirmamos “SÓ A LUTA MUDA A VIDA”!!!!!!

O RESULTADO DAS ELEIÇÕES E A COMPRA DE VOTO





As eleições no Estado do Maranhão chegaram ao final e como era de se esperar a maioria dos deputados eleitos, tanto a nível federal como estadual, os senadores e da governadora Roseana Sarney só confirmam o que vimos afirmando todos estes anos: a disputa era contra o poderio econômico e infelizmente também contra a cultura da compra de voto por parte da maioria do nosso povo.



Se pegarmos os principais deputados estaduais e federais eleitos no Maranhão dentro dos principais grupos que disputaram as eleições esta análise se confirma. Ricardo Murad, Cutrim, Gardênia Castelo, Gastão Vieira, Nice Lobão, Cléber Verde entre outros. Os que estes senhores e senhoras disseram mesmo que possa contribuir para o avanço da melhoria do nosso povo. Respondo: nada. Os que eles tinham era uma imensa grana confiscada do setor público tanto de forma direta como indireta. Esta grana encontrou uma parte do nosso povo com grandes necessidades materiais e outros setores da classe média acostumados a vender votos em troca de gasolina. Esta mesma análise vale para os votos de governador e senadores.


Esta reflexão ela tem fundo de verdade, pois vivencio isto desde 1998 quando disputei pela primeira vez uma eleição para o Senado em nosso estado. Por várias vezes fui instigado por eleitores afirmando que votaria em mim se eu lhe desse algum beneficio material. De imediato eu respondia: meu caro só eu que não quero teu voto. Tentava convencê-lo de quanto é prejudicial à alimentação desta prática para os destinos da humanidade e, em particular, para a vida imediata da comunidade. Na Maioria das vezes eu era voto vencido e ele me dizia que ia procura quem comprasse o seu voto.



Por este motivo é que nós do PSTU somos gratos aos 14.685 eleitores que votaram em Marcos Silva, os 21.944 que votaram em Claudicéa Durans, os 17.818 que votaram em mim (Noleto), os 3.884 que votaram em Eloy Natan, os 2.083 que votaram em Ramon Zapata e os 84.609 que votaram no companheiro Zé Maria. Sabemos que esses eleitores votaram devido ao seu elevado nível de consciência de classe e, em nenhum momento, esperaram ajuda material em troca deste gesto de confiança em nosso partido e na nossa luta.